Porto Velho,
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Lucio Albuquerque

Lúcio Albuquerque, repórter, trabalhou em jornais locais e outros Estados. Membro da Academia de Letras de Rondônia e autor de livros sobre a História (segmentada) de Rondônia.Atualmente é repórter do Jornal Alto Madeira e colaborador do Portal Gente de Opinião.

42 anos aprendendo Rondônia - Por Lúcio Albuquerque

19/04/2017 - [21:27] - História


Lúcio Albuquerque, repórter

Em 1973 estive em Porto Velho e a cidade, pelo que mostraram, terminava ali na Avenida Joaquim Nabuco, casas de madeira, algumas eram de palha, inteiramente, ou apenas cobertas por esse material, mas eu já era viajado de Amazônia e conhecia cidades muito menores.

É preciso entender que tive sorte, como repórter e como membro do Projeto Rondon, de conhecer comunidades muito menores, como ainda há hoje, portanto, quando vim em 1975, não me assustavam os problemas. Tive uma boa oferta profissional e resolvi encarar.

Mas eu já era casado e não sabia como a Fátima – àquela altura tínhamos só ainda uma filha – iria encarar. Nascida, criada, no mesmo bairro, em Manaus ainda provinciana, mas já muito maior que Porto Velho. Quando ela chegou e se dispôs a ficar fui claro: aqui falta muita luz, água tratada é difícil (fomos morar numa casa que usava água de cacimba), aqui não tem sorveteria (a venda era feita em carrinhos de mão com uma lata no centro cercada por pedaços de gelo e o sorvete dentro; aqui não tem pizzaria, só tem um canal de TV (TV-Rondônia), a imagem é péssima, os programas chegam dois dias depois de passados em Manaus, etc. Ela topou.

Fomos para a casa que eu havia alugado e na primeira madrugada quando acordei havia caído um temporal, e a água estava na altura do colchão da cama. Acordei as duas – ela e a filha Michelle – levei ambas, no braço, caminhando com água no joelho, para a esquina de onde hoje é a Roldão Motos.

Em 1977 fomos morar numa casa quase na esquina das avenidas dom Pedro II com a Jorge Teixeira (que era chamada Avenida Kennedy). O banheiro ficava no fundo do quintal a mais de 30 metros e tivemos de mandar construir um anexo a casa. Era um poeiral enorme e botar roupa para secar era muito provável que ela viesse de lá coberta de poeira amarela que grassava porque a cidade não tinha asfalto.

Em 1978 tivemos a primeira transmissão direta de televisão, na abertura da Copa do Mundo da Argentina. Havíamos comprado em Manaus uma televisão colorida de 28 polegadas e algumas pessoas “gradas” foram assistir ao jogo na sala da casa de madeira.

Também naquele ano de 1978 compramos o terreno onde é nossa casa. No mapa era a Duque de Caxias, depois da Jorge Teixeira (àquela altura era Avenida Kennedy). Tivemos de mandar desbastar o terreno derrubando árvores. Para fazer a casa mandamos abrir um caminho só para passar um carro e em frente a obra uma área maior para poder deixar o material de construção.

Quando mudamos para lá em maio de 1979 já tínhamos mais duas filhas, mas a água continuava de poço, luz elétrica era apanhada numa casa vizinha a partir de um “gato” feito a mais de 300 metros de distância, telefone era caro – a linha telefônica, ainda era fixa, mais cara ainda, e o jeito foi mandar fazer uma fiação de 600 metros para ligar o aparelho.

Nas madrugadas, com mais dois vizinhos, um deles o “seu” Vila continua residindo na mesma casa onde o conheci, debulhávamos uma “mangueira” de borracha para pegar água de poço artesiano na empresa de um amigo, no local onde hoje fica o Hotel Bahia, distância de quase 300 metros da nossa casa. Depois de encher as vasilhas tínhamos de enrolar tudo. Para ajudar a passar o tempo sempre assávamos uma banda de tambaqui e degustávamos alguma bebida.

Quando chovia o Igarapé dos Tanques, que passa a 50 metros de casa, transbordava, e aí vinha dar em frente ao portão, não chegando dentro porque ela foi construída num lugar mais alto. O “Tanques” era usado para curtir um banho de igarapé

Da nossa casa vimos quando fizeram a estação rodoviária.  E nas andanças pela cidade, vimos a nossa terra crescer, vibrante e sempre buscando o futuro.

Não tive a sorte de ir de trem a Guajará-Mirim, porque um ano antes o trem da Madeira-Mamoré havia passado a ser somente história, já não apitava mais, mas a cidade tinha outras referências, como o carnaval muito animado ou os jogos no estádio Aluízio Ferreira, recebendo 5 a 10 mil pessoas.

Não tenho dúvidas: Talvez tenham sido os problemas que nós e muitos outros tivemos de enfrentar que nos levaram a ficar.

E COMO A VEMOS HOJE

Quando chegamos eu conhecia apenas uma pessoa, o jornalista Walter Santos Barbosa. A Fátima, tenho certeza que a ninguém. Mas fomos tão bem acolhidos pelos que já tinham raízes quase seculares aqui – e encontramos dentre mais de 80% da população gente que havia vindo de outras terras, que não foi difícil nos enturmar.

Tivemos a sorte de, como vimos nossas filhas e vemos hoje nossos netos e netas crescendo, também vermos a cidade ganhando ares de metrópole, veio o Estado, a Universidade, melhores locais de lazer e, principalmente, pudemos amealhar grande quantidade de amizades que perduram nesses mais de 40 anos.

Somos parte de uma cidade que já enfrentou muitos ciclos: da cassiterita, do garimpo, já mudou de figura não sei quantas vezes, literalmente “explodiu” e sempre, como quando chegamos, tem-se mostrado aberta a quem vem para somar, ainda que tenhamos problemas não existentes mais em cidades do porte da nossa, mas esse é o preço que pagamos.

Dá para comparar com o que vimos e passamos? Não. Mas eram outros tempos, como certamente outros tempos estarão vindo e pessoas, como nós, que cheguem agora, também possam contar a seus netos como era e como estarão vivendo quando meus netos serão todos adultos.

Mas pudemos ver a cidade crescer, o Estado chegar, a economia sair do extrativismo para a produção em larga escala e o agronegócio.

Não nego: algumas vezes chegamos a conjecturar a possibilidade de irmos embora. Eu, particularmente, tive convites profissionais para mudar, feitos por dois grandes jornais do país, mas preferimos ficar. Felizmente.

E eu, todos os dias, aprendendo Rondônia.


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