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CHUTANDO O BALDE

William Haverly Martins é professor, escritor, vice-presidente da ACRM (Associação Cultural Rio Madeira), ex-presidente da ACLER (Academia de Letras de Rondônia), membro da AHMFPB (Academia de História Militar Forte Príncipe da Beira), fundador da ARL (Academia Rondoniense de Letras), onde ocupa a cadeira número três e recebeu o título de Presidente de Honra. Contato (williamhaverly@gmail.com).

CHUTANDO O BALDE: 'TODA NUDEZ SERÁ CASTIGADA'

06/10/2017 - [14:27] - Opinião

 

 

 

 

'TODA NUDEZ SERÁ CASTIGADA'

 

William Haverly Martins

O mês passado foi pródigo em assuntos chutáveis. Mas, devido a estrutura da coluna, tenho que me alongar em apenas um assunto, portanto deixei de lado o suicídio do reitor corrupto da UFSC, ao confrontar-se consigo mesmo, com a família e com a opinião pública dos docentes e discentes a ele subordinados. Era ideia minha lembrar caso similar ocorrido em Rondônia, mas sem o desfecho oriental, cujos envolvidos ainda hoje desfrutam das verbas surrupiadas. Era ideia minha estender o fato macabro à classe política brasileira, notoriamente fora do contexto “vergonha na cara”, declarando minha intenção de que a decisão do reitor viralizasse nos três poderes da República Tupiniquim: o paradoxal suicídio seria, então, a forma mais simples (não envolveria o aparato investigativo do Estado) e a mais complexa (dependeria de uma introspecção séria, envolvendo a ética com fortes resvalos na moral) de se exterminar a “raça” dos corruptos da sociedade, mesmo sabendo que essa “raça” desconhece o significado de ética.   

Mas o assunto “os limites da arte”, devido as minhas pretensões literárias, foi o que mais me atraiu, visto que acabei de escrever um romance que retrata os limites na vida de um escultor, às voltas com a morte matada e a censura sobre o trabalho artístico: O Último Retirante.

Há cerca de três décadas e por mais de dez anos, o professor (psiquiatra/psicanalista) José Ângelo Gaiarsa (30 livros escritos em 50 anos de profissão) protagonizava um quadro de um programa na TV aberta, dando aulas de educação familiar: o velho psicoterapeuta, bem à frente de seu tempo, dizia que Jung era sua teoria e Reich sua ferramenta, e um dos principais conselhos daquele apresentador era exatamente o de que o pai tomasse banho junto com a filha e a mãe com o filho, assim os órgãos sexuais seriam vistos e explicados, como partes naturais/normais do corpo, excluindo da cabeça da criança a ideia de “pecado”, relacionada à genitália, transmitida à sociedade ocidental, inicialmente, pela Igreja Católica e, hoje, reproduzida com mais veemência, pelas igrejas protestantes fundamentalistas:

"A educação sexual, que o senso comum tanto teme, é, na verdade, uma das formas mais eficazes de enfrentamento da violência sexual. Não se refere apenas ao conhecimento dos genitais e saber de onde vêm os bebês, mas aos conceitos de autoproteção, consentimento, integridade corporal, sentimentos, emoções, sonhos, identidade, tipos de toques que adultos estão autorizados ou não em relação ao corpo da criança e do adolescente – tudo isso é educação sexual”.

Saindo do conceito de educação sexual e ingressando no da arte, particularizando o nu artístico, lembro que esta polêmica não é de hoje: o papa Paulo IV, por volta de 1555, mandou cobrir os órgãos genitais de todas as pinturas e esculturas que mostrassem as partes íntimas dos humanos retratados, e Michelangelo, autor da maioria delas, teve que fugir da Itália para não ser preso.

Se o Davi, a magnifica reprodução do herói bíblico, inaugurada por Michelangelo, em 1504, mesmo com o pênis proporcionalmente pequeno em relação aos outros membros, fosse feita hoje, no Brasil, a bancada protestante do Congresso incorporaria o papa referido e pediria a prisão do autor por desrespeito à memória de Davi, por atentado ao pudor e, por último, por estupro de vulnerável, visto que o pênis do herói bíblico seria visto por meninas menores. Vale lembrar que no século XX (1991) um homem revoltado com a exposição do corpo nu de Davi atacou a estatua com uma marreta, danificando as pernas da escultura de mais de 5 m de altura, o que demonstra, na prática, o efeito doentio, depravado, de um tabu, como explicava o renomado Gaiarsa.

O bispo Marcelo Crivella, prefeito do Rio de Janeiro, acaba de proibir (05/10) a exposição Queermuseu na cidade, por conter, na opinião dele, obras que atentam contra a moral cristã do povo carioca. A rede Globo e a Record, diuturnamente, apresentam, em suas novelas, cenas muito mais fortes do que as telas, esculturas e instalações do Queermuseu. Filmes pornográficos são exibidos via smartphones, ao longo do dia, e sem qualquer censura. Segundo pesquisas, os smartphones, hoje, estão nas mãos de milhões de crianças com pouco mais de dez anos de idade.

É muito mais importante implantar a educação sexual na escola e no ambiente familiar do que reprimir, censurar, defender tabus, ou prender o bailarino Wagner Schwartz pela performance La Bête (O Bicho) no MAM e absurdamente processá-lo por estupro e pedofilia. Na performance, deitado em um tatame, Schwartz manipula uma réplica de uma das esculturas da série Bichos (1960), da artista plástica Lygia Clark, provocando interação com o público.

 Até assimilo que a arte entende o nu muito além do sexo, muito além da polêmica vazia, onde tudo é deturpado para alimentar o ódio e o culto ao tabu. Entrementes me vejo diante dos limites impostos à liberdade, mesmo não admitindo a censura que restringe a liberdade de expressão e a inspiração, que cerceia a potencialidade de uma obra de arte.

Até aí tudo bem, mas o que a mim causa espécie é classificar, contemporaneamente, uma obra ou uma performance como arte, como se o exercício da liberdade nas artes não tivesse limites. Liberdade sem limites é anarquia, tanto na vida como na arte.

Num mundo em que “quase tudo” é considerado “arte moderna” ou até mesmo “arte de vanguarda”, o olhar seletivo, ainda que subjetivo, do espectador, precisa estar atento ao rotular o que é arte, evitando o abismo entre o público e as obras apresentadas como artísticas, desmitificando as excentricidades similares à Marcel Duchamp & Cia., cabíveis numa época, em que se questionava o fazer artístico, mas isso é passado. Para quem não se lembra, Duchamp foi aquele francês que, em 1917, transformou um urinol em obra de arte (Fonte), e que, depois de uma masturbação, pingou uma gota de esperma numa chinela velha, hoje valendo uma fortuna, exposta num museu de Tóquio, etc. etc.

A liberdade do “tudo pode”, endossada por marchands e produtores de eventos artísticos, manipuladores da massa desinformada, nem sempre intérpretes do bom senso, acaba caracterizando como arte instalações absurdas, muitas feitas sem nenhum critério, outras premiando o caráter fantasioso e excêntrico do artista, na contramão da opinião abalizada do público frequentador de museus e salões de artes plásticas.

Daí o chute no balde, criticamente, sem medo de ser tachado de conservador e esnobe: a performance do MAM, com ou sem a participação de crianças, é exemplo de arte vazia e sem sentido, totalmente fora de época e de contexto, apesar da referência aos bichos dobráveis de metal de Lygia Clark.


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