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Luka Ribeiro

CEMITÉRIO DE CIRCOS


                    Felipe Assad Azzi
                   
(guajaramirense / Advogado )

 

                Em tempos já bem distanciados, mais precisamente nos anos cinquenta, Guajará injustamente levou fama de “cemitério de circos”.    A chegada do circo era festiva: banda de música desfilando com palhaços e trapezistas, anões, cachorrinhos e mágico fazendo várias sinalefas pelas ruas. A meninada em volta recebendo a carimbada no braço que lhe valia a entrada franca ao espetáculo. A algazarra era uníssona: “O palhaço, o que é?... É ladrão de mulher!...” Tudo era alegria e expectativa. Ocorre, porém, que, após uma semana de função, tudo caía em desgraça. O circo perdia o fôlego, abria o bico e entregava os pontos.

                Nesse período não houve um circo que escapasse do cruel destino. Foram vários, cujos nomes a memória não recorda. A coisa ficou tão séria que circo que se prezasse, tal qual o “Moulin Rouge”, passou a evitar a rota de Guajará. Ficava mesmo em Manaus ou, no máximo, esticava a viagem até Porto Velho.

                Certa vez, aportou em Guajará um circo de cavalinho, mambembe como ele só, que nem cavalo tinha, e se instalou na Av. Constituição, logradouro com casas de um lado só, e naquela época ainda ermo, pois era passagem da linha férrea da “Madeira-Mamoré”. Passada a primeira semana, sobreveio a desgraça e foi penoso assistir ao desmonte: as lonas foram vendidas para a empresa de “catraias”, embarcações simples que fazem ainda hoje a travessia fluvial entre Guajará-Mirim e sua homônima do lado da Bolívia; o picadeiro, composto de mastros e travessas, assim como os poleiros  de madeira, foram vendidos para a Serraria local; os camarins e demais móveis e objetos, a Prefeitura os comprou a preço de banana para incentivar o teatro amador nas escolas.

                Preocupante, no entanto, era o destino das pessoas que faziam o espetáculo. Deram-se casos, no mínimo hilariantes: o Comedor de fogo arranjou ocupação numa Serralheria como ativador do fogo da forja; o Mágico, não tendo o que mais fazer, deu de soltar lenços de seda e panos de chita pela boca que foi um despautério. Acabou montando um pequeno comércio de tecidos; as Trapezistas, quatro vistosas peças de fino acabamento, tanto nas partes de cima como nas de baixo, montaram negócio mimoso no bairro do Triângulo, para delírio da rapaziada, coisa conhecida na Bahia como “Casa de quengas”; o Bilheteiro fugiu com a “féria” da última função, levando na garupa da bicicleta a anã que, na noite anterior, havia brigado com seu parceiro, o homem das pernas-de-pau. E o TREINADOPR DOS CACHORRINHOS, para não ficar por baixo, sumiu com a MULHER BARBADA e foi visto, lá pelas bandas da Colônia do Yata, fazendo assombração em noite de lua cheia. O pessoal, arreliado, dava conta que havia LOBISOMEM no pedaço ou BOITATÁ desgarrado da floresta.

                O Prefeito da época foi franco. Diante de tanta quebradeira circense, deliberou: Circo na cidade, somente mediante o tal de Seguro Contra Falência Avulsa, ou munido de uma FIGA DE GUINÉ tamanho família, amamentada em noite trevosa, que é especial contra mordida de cobra e “olhar seca-pimenteira”...

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