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Gente de Opinião

Luka Ribeiro

O BICHO FOLHARAL


                Felipe Azzi

                Caçava por mania mesmo, porque para viver disso, não precisava. Era ADROALDO PESTANA DA MTA, funcionário do Fomento Agrícola de ARROZEIRA DO PINHAL. Cismático por natureza, não refugava parolagem sobre caçadas e incursões mato adentro, mesmo que fosse coisa inventada. Contava casos, os mais esquisitos, sustentando como verdadeiros.

                Certa vez, contou para circunstantes que, estando em caçada de bicho de asa, viu no céu uma formação de marrecos em voo de arribação. Eram doze tão juntos que parecia uma prosa de amigos. Aprumou a espingarda carregada com cartucho de doze chumbos. Não tinha como errar. Mandou fogo e caíram onze marrecos. Ao chegar em casa, lamentou, contando para a mulher, que no tiro perdera um marreco. Para sua surpresa, viu, cruzando o céu, o último marreco ser abatido com o chumbo remanescente, justamente no quintal de sua casa.

CRAVINO TRONCOSO, para não ficar por baixo, entrou com o seu caso, dizendo que, estando em caça de bicho miúdo, se deparou com uma anta de porte e peso avantajados. Rápido acionou a espingarda, mas viu que havia deixado a cartucheira em casa. Para não perder a caça monstrenga, municiou a arma com algumas sementinhas de aroeira espalhadas no chão. O disparo foi certeiro, mas a anta saiu em louca disparada, de não mais ser vista. Meses depois, de volta ao mesmo lugar e estando em caçada de caso pensado, tendo na mira um “galheiro” vistoso e bem cevado, foi surpreendido com uma barulheira de galhos vindo em sua direção pelas costas. Não tinha engano. Era a dita anta fujona que, servindo de sementeira, se transformou em BICHO FOLHARAL.

                Surgiu, então, uma discussão dos capetas: PESTANA dizia que TRONCOSO era mentiroso; CRAVINO rebatia, afirmando que ADROALDO era conhecido como invencioneiro, e que o que ele caçava mesmo era preá.

                A confusão ganhou corpo. Copos e garrafas tilintaram sobre as mesas. Salgadinhos saltaram para todos os lados, parecendo grilos de pasto em pisoteio de gado vadio. Até que o bração cabeludo do lusitano MANOEL TRAVASSOS juntou os faroleiros pelos cangotes e, na base de tabefes e cachações, varejou os dois na sarjeta em frente ao bar “TRÁS-OS-MONTES”, com esta justificativa trasmontense:

                 – É MUITA MENTIRA PARA UM ESTABELECIMENTO SÓ... DESSE JEITO O FATURAMENTO DESPENCA... VÃO MENTIR ASSIM NO RAIO QUE OS PARTA!

               

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