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Luka Ribeiro

UM TIRO SEGURO NO TACACÁ


                            Felipe Azzi

                Recordo, do tempo de minha infância, nomes de remédios cuja propriedade curativa não me lembro. A grafia talvez não esteja correta. Valho-me, então, da fonética gravada na memória.

                Os nomes eram por demais pitorescos: ANTI-FROGESTINO; REBALCIN PAPAVERINA; URUDONAL; PÍLULAS DE VIDA DO DR. ROSS; RHUM CREOSOTADO; DYSPNÉ-INHAL; PANVERMINA E TIRO SEGURO, os dois últimos muito eficazes contra vermes. Não tenho lembrança de alguma criança de antanho que tenha escapado desses vermífugos.

                Na minha casa, me lembro bem, era um problema a ocasião da aplicação, via oral, desses purgativos tão usados naquele tempo em que a assepsia dos alimentos não era confiável.

                Certa vez, escutei minha tia DADÁ, em conversa de muro, queixando-se para a vizinha, dizendo:

                – OSCARINA, já não sei mais o que fazer para o meu filho AMYR aceitar beber o TIRO SEGURO!... Tento de tudo, fecho-lhe o nariz, cubro-lhe os olhos, mas não adianta. Já quebrei três cabos de vassoura em sua cabeça, e ele, “nem-seu-souza”.

                OSCARINA, uma morena jambo de olhos cor de jade brilhantes, com jeito especialista, perguntou:

                – O que ofereces como incentivo, caso ele beba o purgante?

                – Goiabada, doce de leite e laranja – disse minha tia.

                OSCARINA pulou dos tamancos e retrucou:

                – Desse jeito DADÁ, não podes mesmo conseguir!... Tens que usar como contragosto uma CUIA DE TACACÁ, daquelas bem servidas, com cinco camarões graúdos. Duvido que ele não beba o purgativo!

                Naquele tempo havia uma tabela para o uso dos vermífugos. Poderia ser uma ou duas vezes ao ano, dependendo do empanzinamento da criatura.

                Chegada a data do suplício, estávamos os três: AMYR, ÍLCIA  e eu, na área de serviço, em formação para o cadafalso, quando ZULMIRA, a serviçal de casa, chegou com três CUIAS DE TACACÁ exalando peculiar cheiro por toda a casa. Eu, com jeito matreiro, disse que não iria beber tal purgante, mesmo com a regalia do tacacá.

                – Pois serás o primeiro! – retrucou minha tia.

                Lembrando o degustar distanciado no tempo, digo, sem pejo, que aquele tacacá estava uma delícia.

                Em seguida, ÍLCIA, aos trancos e barrancos, com ânsias de regurgitar, acabou sorvendo, não sei como, em duas vezes, o nojento purgativo, avançando de imediato na cuia de tacacá.

                Meu primo AMYR, a um canto encolhido,  murcho feito maracujá de gaveta, observava e avaliava as armas do combate, na esperança de sair pela tangente, quando ouviu espantado a convocação de minha tia:

                – Venha, AMYR, é a tua vez! Veja, meu filho... O Felipe e tua irmã já tomaram o tacacá.

                E, com olhar apelativo para nós, perguntou:

                – Não estava uma delícia?... Heim, meninos?

                Respondi confirmando que estava ótimo, mas arquitetando em  minha mente um pensamento só: “Se o AMYR não beber o purgante, eu fico com seu tacacá...”

                Os restos da refrega foram uma área de serviço empestada, de ponta a ponta, por resíduos de TIRO SEGURO e TACACÁ, com o desperdício lamentável de JAMBU, TUCUPI e CAMARÕES as melhores procedências.

                AMYR teve que tomar três banhos, um dos quais, reforçado com muita essência de eucalipto, como descarrego do cheiro da desgraça purgativa, que era um composto de óleo de rícino, mastruz, melaço e outros componentes, de sabor extremamente desagradável.

                Esse fato ocorreu em Belém do Pará, onde oramos durante dois anos. Não me lembro de ter visto o AMYR beber, uma única vez que fosse, o aterrador purgativo que, para ele, era UM TIRO SEGURO NO TACACÁ.

               

              

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