Domingo, 6 de fevereiro de 2011 - 16h34
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| Lavagem da cassiterita, minério de estanho /FOTO BIBLIOTECA IBGE |
MONTEZUMA CRUZ
Editor de Amazônias
Todas as manhãs a Mineração Oriente Novo S/A (Grupo Brumadinho) veiculava pela Rádio Eldorado do Brasil (*) um anúncio enaltecendo os seus pressupostos sociais. Alardeava que o seu trabalho garantia “novos lares para os rondonienses, com água, energia elétrica etc.”
Na verdade, ela era uma das “donas do feudo” das minas de estanho, onde se espantava garimpeiro sob mira do fuzil. Não estava tão preocupada com o desenvolvimento do estado. Na condição de exploradora desenfreada dos recursos minerais, pouco se importava se o estado continuasse entravado, pois dessa maneira os seus planos de tacar as unhas nas jazidas seguiriam inalterados.
A farta propaganda radiofônica se dava na ocasião em que o presidente da Companhia de Pesquisas de Recursos Minerais (CPRM), José Carlos Boa Nova, acusava “garimpeiros de invadir áreas outorgadas a empresas de mineração (**)”. Dizia que eles agiam em firmas clandestinas, “cheios de equipamentos”.
Tivessem os garimpeiros os equipamentos mencionados por Boa Nova, teria surgido uma poderosa cooperativa, a exemplo do que fizeram a Bolívia e o México. Passada a fase áurea do bamburro daquele ano, Rondônia depararia com os seus garimpeiros em crise, sem locais para trabalhar, enquanto 80% do subsolo permaneciam nas mãos de meia dúzia de grupos apoiados por Brasília.
Críticos da presença do capital multinacional e do próprio capital selvagem nacional nas reservas de cassiterita sugeriam em 1985 que a Oriente Novo “poluísse” menos os ouvidos dos radiouvintes, “já que vivia da poluição predatória”, cavando buracos para extrair sua matéria-prima, que por sinal, embarcava para bem longe de Rondônia.
Entre as décadas de 1970 e 1980 a cassiterita bruta saía daqui mediante o pagamento de apenas 1% do Imposto Único Sobre Minerais, para ser industrializada em São Paulo, estado que ficava com as riquezas do nosso subsolo. Depois de beneficiada, incidiriam sobre esse minério 17% de Imposto Sobre Circulação de Mercadorias e Serviços – exclusivos dos paulistas.
“Se tem verba para publicidade, financiem alguma atividade cultural, quem sabe, um time de futebol. Mas livrem a cidade de seus anúncios repetitivos, demagógicos e sem graça. Não abusem da paciência da população que lhes acolheu faz muitos anos, deixando que explorassem seus recursos e abusassem da mão-de-obra barata.
NOTA
(*) Essa emissora de Porto Velho pertencia ao empresário Mário Calixto Filho.
(**) A palavra mineração abrange todos processos de extração, as atividades minerárias e industriais, cujo objetivo é a extração de substância minerais a partir de depósito ou jazidas minerais. Deriva do latim medieval – mineralis – relativo a mina e a minerais.
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