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Montezuma Cruz

Da infância à beira do Rio Madeira, Ana Mendes mostra hoje a luta de comunidades tradicionais


Da infância à beira do Rio Madeira, Ana Mendes mostra hoje a luta de comunidades tradicionais - Gente de Opinião

Ana Mendes, filha da jornalista Cristina Ávila e do falecido professor Valter Mendes (do Colégio Carmela Dutra), expõe “Quem é pra ser já nasce”, com ingresso gratuito, na Associação Fotoativa em Belém (PA). São 24 fotografias e colagens em preto e branco, resultado de um trabalho desenvolvido ao longo de quase um ano com dez mulheres indígenas, quilombolas, quebradeiras de coco babaçu e assentadas do Maranhão.

A exposição é a continuidade dos saberes e das lutas transmitidas entre gerações, com lições aprendidas por mães, avós e outros ancestrais. Ela integra uma pesquisa fomentada pelo Prêmio Funarte Marc Ferrez de Fotografia, da Fundação Nacional de Artes (Funarte), e constitui um recorte da pesquisa de doutorado que a artista desenvolve no Programa de Pós-Graduação em Artes da Universidade Federal do Pará.

Na condição de ex-correspondente do Jornal do Brasil (Rio de Janeiro) percorri no sul daquele estado, em 1987, áreas de conflito agrário em Grajaú, Arame e Imperatriz. Por conhecer e conviver com Ana por um período, me surpreende o seu crescimento profissional.

Em termos de ameaças e conflitos violentos, lamentavelmente o Maranhão piorou, e ela esteve lá para retratar a resistência de famílias pobres, do cerrado à margem dos trilhos da Ferrovia de Carajás, e dali a zonas de pobreza rural.

Em Foz do Iguaçu (PR), na fronteira brasileira com Argentina e Paraguai, eu não imaginava que um dia aquela menina que morou até os três anos de idade numa palafita na margem do Rio Madeira em Porto Velho, alcançasse méritos tão importantes na carreira que abraçou.

Vem agora Ana Mendes mostrar à Amazônia e a quem mais quiser conhecer, o drama diário de lideranças – homens e mulheres –, cujos territórios enfrentam ou já enfrentaram ameaças de morte em razão de suas lutas coletivas pela terra, pela natureza e pela permanência de seus povos.

Assistir o filme “Quem é pra ser já nasce”, dirigido por ela dá exatamente a visão dos conflitos e da força do capital financeiro sobre aquela gente. Já o ensaio fotográfico também nascido da experiência pessoal de Ana Mendes rendeu-lhe ameaças. A fotojornalista pisava o chão dos pobres dominado a ferro e a fogo por barões da soja, da pecuária e de plantas alimentícias.

Mestre em Ciências Sociais, Ana atua há mais de oito anos na Amazônia Brasileira, onde desenvolve projetos que articulam fotografia, vídeo e pesquisa acadêmica com foco em comunidades tradicionais.

Seus trabalhos foram publicados em veículos nacionais e internacionais e integram o acervo da Biblioteca Nacional da França (BnF). Entre eles, a capa jornal Washington Post.  Em 2024, participou da edição francesa do livro Appartenance (Pertencimento). Integra os coletivos Fotografia, Periferia e Memória e Pyhän (Akroá Gamella-MA).

O que vem depois do medo?

Da infância à beira do Rio Madeira, Ana Mendes mostra hoje a luta de comunidades tradicionais - Gente de Opinião

Na condição de documentarista e cientista social no Maranhão, não se vergando ao risco real, Ana Mendes decidiu deslocar o foco da violência para uma pergunta central: “O que vem depois do medo?”.

Suas imagens dão a resposta depois de se encontrar com diversas mulheres trabalhadoras do campo. “Este é um trabalho sobre amor e esperança. Não é sobre violência e morte”, afirma a artista.

Entre as imagens, há um autorretrato de Ana Mendes estabelecendo um diálogo direto com as narrativas das retratadas, funcionando como espelho das lutas compartilhadas por defensoras ambientais, comunicadores e povos tradicionais.

São grupos que figuram entre os principais alvos de assassinatos no Brasil. Dados de organizações da sociedade civil apontam o País como um dos mais perigosos do mundo para defensores de direitos humanos. Pará e Maranhão estão entre os estados que concentram esses crimes.

Akroá Gamella

Da infância à beira do Rio Madeira, Ana Mendes mostra hoje a luta de comunidades tradicionais - Gente de Opinião

O título da exposição é inspirado em uma frase de Pjih-cre Akroá Gamella, liderança indígena fotografada no ensaio. Guardiã da casa-sede de uma fazenda retomada por seu povo na Baixada Maranhense, Pjih-cre viveu no local com três filhos pequenos sob constantes ameaças.

Conta a jornalista Cristina Ávila, mãe de Ana Mendes, que esses indígenas foram considerados extintos até 2014.  “Os Akroá Gamella seguem em luta pela retomada de seu território ancestral.”

Na quinta-feira, como parte da programação, aconteceu no Sesc Ver-O-Peso, em Belém, a agenda do Café Fotográfico, promovido pela Associação Fotoativa. Ana Mendes e Pjih-cre Akroá Gamella, que também integra a equipe do projeto, participaram.

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A curadora da exposição, Nay Jinknss é fotógrafa, documentarista, educadora social, pesquisadora e artivista LGBTQIAP+. Natural de Ananindeua, município da região metropolitana de Belém, ela é negra, lésbica, e sua pesquisa e produção artística têm como eixo central o enfrentamento às metodologias racistas e às práticas coloniais historicamente presentes na fotografia, especialmente aquelas que representam corpos negros e indígenas na Amazônia, tanto no passado quanto na contemporaneidade.

Desde 2008, desenvolve um trabalho contínuo no mercado do Ver-o-Peso, em Belém, território que se tornou ponto de partida para suas investigações poéticas, políticas e visuais.

* O conteúdo opinativo acima é de inteira responsabilidade do colaborador e titular desta coluna. O Portal Gente de Opinião não tem responsabilidade legal pela "OPINIÃO", que é exclusiva do autor.

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