Domingo, 13 de fevereiro de 2011 - 19h15
MONTEZUMACRUZ
Editor de Amazônias
Nessa febre espalhada por Rondônia entre 1984, 85 e 86, o garimpo era de fato a primeira opção de trabalho para multidões de desempregados em Porto Velho e noutras médias e grandes cidades brasileiras. A cidade, suas boates, restaurantes e lojas de compra de ouro foram tomadas por motoristas de táxi, ex-posseiros, donas de casa, ambulantes, professores, policiais, cobradores de ônibus, prostitutas, seringueiros e até pedintes, todos cegos pelo brilho dourado.
Quando a diretoria do Singro queria expulsar Mirasselva Carneiro dos seus quadros, os balseiros associados Ivo Amaro Luciano e Francisco Alves de Melo manifestavam-lhe solidariedade e elogiavam a atitude da líder de classe. “Ela não deixou escapar nada”, diziam.
Luciano e Melo haviam sido escorraçados do Garimpo Serraria, onde os dragueiros já imperavam, num clima de bagunça e desarmonia. Era uma das áreas onde faltava policiamento sério
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Garimpo: perigo constante e luta pela sobrevivência no Rio Madeira /RUBENS PILEGGI SÁ |
para defendê-los de roubos, assaltos e da violência em geral.
Os bandeirinhas (táxis fluviais) passavam apuros naqueles confins rondonienses onde o breu da noite escondia o rosto de bandidos e de alguns maus policiais à espreita do próximo assalto. Esses transportadores também entrariam no rol das vítimas, perdendo dinheiro, motor do barco e a própria vida.
Cortava-se o mangueiro e lá ficava mais um corpo nas profundezas do Rio Madeira. Quando o motor da draga acionava o sugador, juntamente com o ouro e sedimentos vinham para a superfície cabeças, pernas e costelas de mergulhadores.
“É incalculável o número de pessoas que morreram e ainda morrem ali; umas, por acidentes causados pelas dragas que invadiram a área, outras assassinadas”, Melo dizia a este repórter (*). A maioria dos mortos nunca apareceria, porque os donos de balsas nem se davam ao trabalho de resgatá-los, o que evitava despesas com o translado do corpo para familiares – isso, quando se sabia onde moravam.
A dupla de balseiros apontava o funcionamento de dragas a todo vapor no Garimpo Paredão do Inferno, principalmente aquelas com 12 polegadas, que tiravam a cada semana seis quilos de ouro. Das quinhentas dragas em atividade naquela área, a metade possuía essa medida.
NOTA
(*) Na época fui um dos editores Do semanário O Garimpeiro, ao lado dos jornalistas Nelson Severino e Luís Roberto da Cruz.}
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