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Montezuma Cruz

Pelejas de sertanistas sufocados pela Funai (1)


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MONTEZUMA CRUZ

Editor de Amazônias

 

Porto Velho –Oito homens, seis mulheres e 14 crianças da tribo Uru-eu-au-au passaram o dia inteiro de terça-feira na frente de atração que a 8ª Delegacia da Funai montou numa área do interior do município de Ariquemes. No Posto Comandante Ari Daltoé, os índios trocaram flechas, pulseiras e arcos por redes, espelhos e panelas. (Meu lead no Jornal do Brasil de 29/7/1982).

Desde a instalação desse posto, em fevereiro de 1980 o problema mais grave na área foi quando o sertanista João Maia Brito recebeu flechadas nas costas e teve que ser hospitalizado.

Em 1979, antes do contato desse povo calculado em trezentos indivíduos, um grupo de 15 dias atacou o seringueiro Francisco Prestes Rosa às margens de um rio na divisa com o Projeto Burareiro. Dois filhos de Francisco foram flechados – um morreu no local, outro mais tarde em Manaus – e outro filho, o menino Gente de OpiniãoFábio Prestes Rosa, que tinha sete anos na época, foi sequestrado pelos índios e até hoje não apareceu.

Foi difícil para o sertanista Apoena Meireles aproximar-se dos índios Uru-eu-au-au, pois lhe faltavam aliados fortes: em 1984 o sertanista Aimoré Cunha da Silva chefiava a Ajudância da Funai em Vilhena; o sertanista José do Carmo Santana, Zé Bel, havia morrido; o sertanista Benamour Brandão Fontes trabalhava na Ajudância do Acre; e o sertanista João Maia morrera em 1982. Auxiliares da frente de atração abandonavam o trabalho, como foi o caso de Getulio Makurap, cuja filha de quatro anos morrera de malária.

Em março daquele ano Meireles assumia a 8ª Delegacia da Funai, com jurisdição para o Acre e Rondônia. Sua luta por demarcação de terras indígenas ampliava-se ao mesmo tempo para a região do Purus (sudoeste do Amazonas), onde viviam os Paumaris, Jamamadis, Apurinãs e remanescentes dos Jumas (vítimas de massacre na década de 1970).

“Faz dois anos que eles reclamam a demarcação”, dizia-me, referindo-se aos Apurinãs.

Também não havia remédios nas aldeias, e naquela época, quem abastecia as farmacinhas dos indígenas era a Central de Medicamentos (Ceme), extinta mais tarde pelo presidente Fernando Collor de Melo. Quando assumiu o cargo de delegado, Apoena também enviou relatórios narrando a invasão das terras do Posto Indígena do Igarapé Lourdes, em Ji-Paraná, habitado por Araras e Gaviões.Gente de Opinião
 
Colonos sulistas, e não foram poucos, acamparam por lá, dando trabalho para a Funai e para o Incra. Negada a manutenção de posse, os índios armaram-se e o conflito instalou-se também naquela área, tal qual a situação dos Suruís, que enfrentavam os colonos capixabas nas linhas limítrofes a Espigão do Oeste e Cacoal.
 
Em junho de 1984, o vereador João Dias (PMDB) acusava empresários do grupo Triangulina, de Ji-Paraná, de invadirem a reserva dos Arara e Gavião, estimulando choque entre jagunços e índios. Contavam-se pelo menos quinhentos invasores.

A febre das hidrelétricas, pequenas, médias ou grandes, ainda não havia chegado a Rondônia naquele período, entretanto, Apoena teve que enfrentar uma dura situação entre os índios Cinta-larga, próximo à Cachoeira de Dardanelos, no Roosevelt, aonde a Centrais Elétricas de Mato Grosso (Cemat) construiria uma usina tempos depois. Além da usina, o garimpo Ouro Preto, na mesma região, atormentava os indígenas.

De um lado, a exploração do ouro mostrava aos Cinta-larga o outro lado de uma vida até então desconhecida; de outro, os técnicos da Cemat davam-lhes presentes. Nessa ocasião, uma índia de nove anos fora violentada.

* O conteúdo opinativo acima é de inteira responsabilidade do colaborador e titular desta coluna. O Portal Gente de Opinião não tem responsabilidade legal pela "OPINIÃO", que é exclusiva do autor.

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