Porto Velho (RO) quarta-feira, 11 de março de 2026
opsfasdfas
×
Gente de Opinião

Silvio Persivo

Carnaval no Norte e os desafios da economia criativa regional


Carnaval no Norte e os desafios da economia criativa regional - Gente de Opinião

Cidades do Norte do Brasil, como Belém, Manaus e Porto Velho, têm experimentado, nos últimos anos, uma transformação significativa em seus carnavais. Com a “Banda do Vai Quem Quer” de Porto Velho, como exemplo, e outros blocos tradicionais, essas festas vêm atraindo crescente número de turistas nacionais e internacionais, impulsionadas pela ampliação da malha aérea e pela valorização das experiências culturais e gastronômicas únicas da região amazônica. Os investimentos em infraestrutura e segurança têm permitido que as festas ampliem seu alcance, contribuindo para a geração de renda e empregos. No entanto, por trás dos números positivos e do crescimento turístico, persiste uma queixa recorrente: o carnaval do Norte e a economia criativa regional não recebem o mesmo apoio que as festas consolidadas do Sudeste e Nordeste do país.

Os blocos tradicionais e grupos culturais da região amazônica enfrentam um paradoxo: enquanto suas festas ganham visibilidade nacional e internacional, os organizadores relatam dificuldades crescentes para viabilizar os desfiles. As principais reclamações incluem a falta de apoio institucional consistente, exigências burocráticas excessivas e, em alguns casos, o uso político das festas por autoridades que veem no carnaval apenas uma plataforma para promoção pessoal, sem compromisso real com o desenvolvimento da cultura local. Esta contradição revela uma questão estrutural: a economia criativa do Norte permanece subfinanciada e subvalorizada em comparação com outras regiões do país, apesar de seu inegável potencial econômico e cultural. O resultado é um cenário onde o sucesso público das festas não se traduz em sustentabilidade para os produtores culturais que as constroem.

Para reverter esse quadro e consolidar o carnaval do Norte como patrimônio cultural sustentável, algumas medidas podem ser implementadas:

1)     A criação de fundos permanentes para a cultura regional. Os fundos permanentes garantem previsibilidade aos produtores culturais, permitindo planejamento de longo prazo. Esses fundos devem ter critérios técnicos de distribuição, com participação de conselhos culturais representativos, evitando a distribuição política dos recursos;

2)     Desburocratização dos processos de licenciamento. A criação de balcões únicos para obtenção de licenças, alvarás e autorizações pode reduzir significativamente o tempo e o custo para organização dos blocos. Processos digitais e prazos claros também contribuem para maior transparência e eficiência administrativa;

3)     Programas de capacitação e profissionalização. Investir na formação de gestores culturais, técnicos de produção e empreendedores criativos fortalece toda a cadeia produtiva do carnaval:

4)     Editais com antecedência e continuidade. A publicação de editais de fomento com pelo menos seis meses de antecedência permite que os grupos se preparem adequadamente. Além disso, editais plurianuais oferecem segurança para projetos de maior fôlego e estimulam o desenvolvimento artístico consistente;

5)      Criação de espaços permanentes para ensaios e produção. A disponibilização de galpões culturais, centros de criação e espaços de ensaio gratuitos ou subsidiados reduz drasticamente os custos operacionais dos blocos e grupos;  

6)     Estruturação de programas de turismo cultural integrado. Articular o carnaval com outras manifestações culturais e atrativos regionais (gastronomia amazônica, turismo de natureza, festivais de música) pode ampliar o impacto econômico e descentralizar os benefícios para além do período carnavalesco.

Algumas cidades brasileiras demonstram como o apoio efetivo ao carnaval pode gerar resultados positivos para toda a comunidade. São exemplos, Salvador (BA), Recife e Olinda (PE), São Paulo (SP) e, mais recentemente,  Belo Horizonte (MG) e Florianópolis (SC).  São bons exemplos e é preciso entender que o carnaval do Norte possui características únicas que merecem ser preservadas e potencializadas. Para isto, é fundamental que as políticas públicas reconheçam essas especificidades e haja apoio para fortalecer as raízes culturais locais e valorização dos mestres da cultura popular.  Porém, um dos maiores obstáculos ao desenvolvimento sustentável do carnaval do Norte tem sido a instrumentalização política das festas. Quando autoridades utilizam os recursos culturais primariamente para autopromoção, cria-se um ciclo vicioso de dependência e instabilidade. A cultura não deve ser refém de ciclos eleitorais ou interesses políticos momentâneos. Cabe aos gestores públicos do Norte do país escolher: repetir modelos ultrapassados de apropriação política da cultura ou construir, em parceria com os verdadeiros protagonistas da festa, um carnaval que seja, de fato, patrimônio de todos e motor de desenvolvimento regional sustentável. A Amazônia tem muito a ensinar ao Brasil sobre diversidade, resistência e criatividade. Está na hora de seu carnaval receber o reconhecimento e o apoio que merece.

* O conteúdo opinativo acima é de inteira responsabilidade do colaborador e titular desta coluna. O Portal Gente de Opinião não tem responsabilidade legal pela "OPINIÃO", que é exclusiva do autor.

Gente de OpiniãoQuarta-feira, 11 de março de 2026 | Porto Velho (RO)

VOCÊ PODE GOSTAR

Os desafios do Brasil num cenário global adverso

Os desafios do Brasil num cenário global adverso

Quais são os objetivos centrais das políticas públicas adotadas pela quase totalidade dos 193 países membros da Organização das Nações Unidas? Em te

Aumento do imposto de importação já eleva preços dos celulares no Brasil

Aumento do imposto de importação já eleva preços dos celulares no Brasil

O aumento do imposto de importação sobre smartphones, oficializado pela Resolução Gecex nº 852/2026, já começa a gerar impacto no mercado. A alíquot

Reforma Tributária: a conta será mais pesada para MEIs e pequenas empresas

Reforma Tributária: a conta será mais pesada para MEIs e pequenas empresas

Os pequenos negócios são a espinha dorsal da economia brasileira. Dados do Serviço Brasileiro de Apoio às Micro e Pequenas Empresas (Sebrae) indicam

Cultura e gosto popular: entre a grande arte e o viral

Cultura e gosto popular: entre a grande arte e o viral

Sinceramente, poucas vezes consigo me sintonizar com os pensamentos de Donald Trump - figura marcante no cenário político moderno e, como todo magna

Gente de Opinião Quarta-feira, 11 de março de 2026 | Porto Velho (RO)