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Silvio Persivo

Cultura e gosto popular: entre a grande arte e o viral


Cultura e gosto popular: entre a grande arte e o viral - Gente de Opinião

Sinceramente, poucas vezes consigo me sintonizar com os pensamentos de Donald Trump - figura marcante no cenário político moderno e, como todo magnata acostumado a fazer o que quer, um egocêntrico. Apesar disso, não dá para negar que há momentos em que ele acerta a mão e acerta questões que muitos criticam com exagero. Por exemplo, a decisão de prender Maduro melhorou, ainda que parcialmente, o clima social e político na Venezuela, com milhares de pessoas sendo libertadas num processo que muitos veem como positivo.

Por outro lado, minha falta de interesse pelo Super Bowl é total. Trata-se de um espetáculo criado principalmente para o público estadunidense, e isso é legítimo- mas não consigo entender o entusiasmo global por ele. Ainda menos compreendo o fervor em torno de artistas como Bad Bunny- cuja música, para mim, simplesmente não ressoa.  Bad Bunny é hoje um dos maiores nomes da música latina no mundo, líder em números de streaming e presença global. Ele quebrou barreiras para artistas que cantam em espanhol e trouxe elementos culturais de Porto Rico para palcos como o do Super Bowl- algo que antes raramente acontecia.

Ainda assim, muitos veem seu show e estilo como ruins, repetitivos ou exagerados, declarando que ele “não canta bem” ou que sua presença em grandes eventos é fruto de um efeito de massa mais do que de um mérito artístico genuíno. Críticas online vão de comparações desfavoráveis com artistas populares locais até declarações duras como “Bad Bunny é pavoroso” e que sua fama seria apenas “histeria coletiva”.

É importante frisar que essa polarização não é incomum no debate cultural atual: enquanto uns o acusam de mau gosto e superficialidade musical- especialmente em performances como a do Super Bowl- outros celebram sua autenticidade e a maneira como ele representou a cultura latina em um palco global.

Do meu ponto de vista pessoal, o que se tornou predominante hoje é uma cultura que confunde quantidade com qualidade. O que viraliza na internet -muitas vezes impulsionado por algoritmos, marketing, memes ou incentivo financeiro- tende a ser visto como símbolo de sucesso, mesmo que não carregue profundidade artística. Esta valorização do sensacionalismo, do choque ou do bizarro como entretenimento contradiz a ideia tradicional de grande arte, que sempre exigiu complexidade, amadurecimento intelectual e um senso de grandeza que vai além do consumo rápido.

A arte de verdade aquela que desafia, ensina e transforma- exige silêncio, reflexão e reverência, coisas cada vez mais escassas em uma era em que tudo pode ser reduzido a padrões repetitivos e facilidades estilísticas. A música realmente memorável normalmente depende de composição cuidadosa, performance técnica e impacto cultural duradouro - características que, a meu ver, não se encontram tão facilmente nas tendências virais contemporâneas.

Por fim, embora eu me considere um elitista cultural, não ignoro completamente a diversidade de gostos nem descarto a relevância social de fenômenos populares- toda manifestação artística tem seu contexto e valor. Mas, penso que devemos diferenciar entre entretenimento efêmero e arte verdadeiramente significativa, e também compreender que o fato de algo ser amplamente consumido não garante automaticamente sua profundidade ou qualidade estética.

* O conteúdo opinativo acima é de inteira responsabilidade do colaborador e titular desta coluna. O Portal Gente de Opinião não tem responsabilidade legal pela "OPINIÃO", que é exclusiva do autor.

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