Terça-feira, 17 de março de 2015 - 00h15
Silvio Persivo
Podem tentar esconder, escamotear, distorcer, mas, enquanto a manifestação “chapa branca” da sexta-feira foi um fiasco, um desperdício, por outro lado, tivemos, no domingo, um notável espetáculo cívico. E não há palavra melhor para descrever a horda verde-amarela que invadiu as ruas do Brasil pedindo o impeachment de Dilma e o fim da corrupção, coisas que estão, pelo menos no imaginário popular, amplamente ligadas.
Não se precisa nem discutir a diferença de números alegada. O fato é que um chamamento difuso, sem uma organização centralizada, sem a participação de partidos, sem lideranças claras conseguiu levar para as ruas milhares de pessoas, quase todas com roupas verdes e amarelas, sem apoio financeiro (não se distribuiu nada, nem se pagou ninguém) e até mesmo sem objetivos definidos, palpáveis, senão o de demonstrar sua insatisfação com o governo, não deixa de ser um fenômeno que famílias inteiras, estudantes, donas de casa, crianças, propiciassem um espetáculo de bom comportamento reclamando, democraticamente, contra o um governo inteiramente desacreditado, que diz uma coisa e faz outra e ainda tenta, de todas as formas, descaracterizar quem aponta os seus erros.
Diziam que era um movimento “gourmet”, de elite, que apenas iriam os “coxinhas”. Depois tentaram caracterizar o ato como antidemocrático que eram os que “pregavam o 3º turno” ou até mesmo “a direita fascista” que deseja a volta dos militares. Nenhum dos rótulos pegou. Pegou mesmo, e com o susto da surpresa, as avaliações dos números de cidades, não apenas nas capitais. Os números divulgados pela Policia Militar, que no Brasil, historicamente, sempre faz essas avaliações, foram contestados pelos estupefatos governistas que se negam a ver, o que o país todo já mostrou por meio de diversos panelaços e apupos: o povo quer democracia, de fato, e mudança na economia. O povo de fato está de saco cheio de enrolação, de candidatos que pregam uma coisa na campanha e fazem outra e, principalmente, da corrupção desenfreada que vem ocorrendo, nos diversos níveis governamentais, porém, que, como apontou Eduardo Cunha, tem sua fonte “do outro lado da rua”.
Não importa se foram os mais de um milhão em São Paulo ou se os quinze mil de Porto Velho ou os supostos 50 mil de Brasília. O que importa é que “nunca antes neste país”, nem mesmo Collor teve uma rejeição tão alta. O que importa é que predominaram os gritos de “nossa bandeira não é vermelha e sim verde e amarela” pedindo a saída de Dilma e do PT, demonstrando o cansaço com um governo pelo qual não se sentem representados. E isto é ainda mais fantástico por não se ter visto nenhuma presença política significativa, nenhuma citação, bandeira ou sigla de qualquer partido ou político. Voluntária, ou não, com toda a tranquilidade, transparência, a manifestação pacifica foi um gigantesco e homérico protesto contra o que o governo fez e faz. Foram manifestantes que, majoritariamente, se posicionaram contra o governo. E mais: em todo Brasil. O governo tentará desmentir, negar, dizer que isto é “democrático”, que “ouviu as ruas” e desculpas congêneres, mas, precisará fazer muito. Precisará se mexer, sob pena, de se tornar, em muito pouco tempo, completamente sem a menor representatividade, um governo tão sem rumo e legitimidade, que será impossível impedir que o impeachment seja a única solução possível. Sob a cabeça de Dilma pende a espada da insatisfação popular e esta não se pode comprar com os recursos da corrupção. Será preciso dar respostas às demandas das ruas.
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