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Silvio Persivo

Reflexões transitórias de fim de ano


Reflexões transitórias de fim de ano - Gente de Opinião

Sim, minha querida, estou preso em mim mesmo. Nunca poderei deixar de ser eu mesmo. O mundo, o meu amor por você somente pode existir se meu “eu” existe e ninguém poderá ser o que sou. Sim, com egoísmo, ou não, eu sou eu mesmo e mais ninguém. Nós amamos por amarmos a nós mesmos. Nada que nos digam muda o fato de que este mundo somos nós. E se há outro não o poderemos sentir. Nele nada somos. Isto também nos fornece a consciência do transitório, da finitude: continuarão, depois de nós, a existir as coisas que amamos, os filhos, os amigos, os outros, as árvores, a beleza dos lugares, o maravilhoso fim de tarde do Madeira, o mar, o céu ou as músicas. O vinho, o bar, o café, sei lá o que mais. Tantas coisas que nos fizeram felizes, ou não. O sol, o sol forte, do qual nos queixamos nos dias de calor.  E reclamar do sol é reclamar da existência. É como reclamar do sono, o mais próximo do não ser. E se não conseguimos dormir, compreendemos a sua benção. Sono, uma amostra da não-existência, que nos faz entender nossa diferença do animal, a consciência. Ou talvez não. Talvez também tenham a consciência da finitude. Talvez não. A palavra deve ser o a chave da representação, ter o receio da imaterialidade. A representação que nos leva a estar acima da dor existencial. Falamos de felicidade, quando não há satisfação verdadeira ou sólida. Com o tempo, através dele, sabemos que somos ignorantes, que não saberemos o que precisamos saber. Por isto, talvez, as palavras de Jesus de que melhor seria não ter nascido. É que nascer é a perda da não-existência, o milagre transitório da consciência. Que nós, incapazes de suportar a ideia da morte, desejamos superar por meio de obras, ou por um ser divino-que só pode ser real por nossa fé. Pelo conhecimento, por nossa ignorância, não podemos demonstrar que, de fato, exista, porém não existir contraria nosso desejo e lógica. Se pudesse rir das minhas reflexões, riria. O riso é a forma superior da dúvida. Mas, se posso rir de mim mesmo, consciente, não consigo pensar em rir quando, a imaterialidade vier. E, nisto, como os que pensam, sinto a inutilidade da vida, a falta de sentido. Por sermos, para nós mesmos, o fato mais importante e, por sabermos que, com a nossa morte, morre um mundo. E esta consciência, pior para quem pensa, se torna mais forte com a idade. Antes uma bela mulher, um jantar, uma música, um vinho, um poema podiam, por algum tempo, ser o remédio para superar a dura reflexão. E oprimido pelos pensamentos recaio em Mateus 12: 43-45, que diz que o homem que procurou descanso, depois de ter expulso um espírito imundo, volta para casa e traz consigo mais 7 espíritos que tornam seu estado pior. Bem o que pretendo dizer com isto? Não sei. Apenas que o tempo é um moinho na sua forma selvagem de moer os sonhos e a vida. E que não somos donos de nosso destino. E que pode tudo acontecer que não estarei sozinho. Com todos os problemas sei que amo e sou amado- e isto é tudo que um homem pode querer ainda que o amor também seja transitório. E que a memória amanhã continue a existir.   

* O conteúdo opinativo acima é de inteira responsabilidade do colaborador e titular desta coluna. O Portal Gente de Opinião não tem responsabilidade legal pela "OPINIÃO", que é exclusiva do autor.

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