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Gente de Opinião

Vinício Carrilho

1º de Maio


Certamente muitos articulistas, críticos e analistas farão análises pormenorizadas do avanço ou do recuo das condições do trabalhador no Brasil, nos últimos anos. Não farei o mesmo. Na verdade, quero apenas chamar atenção para um dado que pude perceber nas últimas viagens. Desde o ano passado, viajei com certa constância a serviço das comissões de avaliação de cursos do MEC. Do final do ano passado para cá uma realidade me chamou a atenção: há muita gente, bastante mesmo, viajando pela primeira vez. Tive ao meu lado inúmeras pessoas que nem sabiam apertar o cinto ou, antes disso, como despachar as malas. Na última vez, um casal se sentou do outro lado do corredor. Já idosos, estavam felizes pela viagem. Não sabiam, no entanto, que os assentos são marcados em seu bilhete de embarque e que eles deveriam seguir a numeração. Logo chegou o fiel depositário do banco e pediu o seu lugar. Os dois sorriram e disseram que não sabiam que os bancos tinham dono. Achei engraçada a expressão: donos. Enfim, a pessoa não se importou e pediu para ver o banco destinado aos dois e assim fazer a troca. Trocou. Foi parar no fundo do avião. Mais um pouco e chegou um sujeito de paletó, meio confuso e não muito feliz por ver um casal de idosos em seu lugar. Antes que começasse o inventário e toda aquela história de que “está no meu lugar”, me antecipei e perguntei se ele poderia trocar de lugar com os dois. Como tinha ouvido a resposta anterior, já lhe disse que deveria ir até à poltrona 19B. De certo modo, ficou meio sem entender por que eu, do outro lado do corredor, falava pelos dois, mas mesmo sem entender, talvez para não se sentir mais constrangido, concordou rapidamente e se foi para o final. O que quero dizer com essa história é que, se o trabalho se precarizou muito no Brasil, de outro modo, há muito mais gente produzindo, ganhando algum dinheiro e mesmo os analfabetos já podem andar de avião. Quem diria que há dez, vinte anos atrás os analfabetos iriam pegar avião. Se bem que desde a CF/88 eles já têm o direito ao voto. Então, direito ao trabalho e à socialização, o que inclui andar de avião, seria uma consequência. Penso que deveriam colocar na Constituição, como direito fundamental, que todo trabalhador, não importa sua função, se tiver carteira de trabalho assinada, tem o direito de andar de avião nem que seja uma vez na vida. Toda e qualquer pessoa é uma e será outra, totalmente diferente, depois que conhecer o mar, andar de avião e ter a primeira relação amorosa. Mesmo aquele que é mais frio, elitista, burocrático, acaba se sensibilizando ao ver pessoas tão simples, num misto de euforia e vergonha, sorrindo à toa porque tiveram o direito de sair de casa, de entrar num mundo antes reservado a uma elite poderosa, egoísta, excludente. Parabéns aos trabalhadores, aos que andam de avião e aos que ainda esperam sua vez. É um lugar comum, mas o Brasil de hoje já é um pouco diferente graças às conquistas e às pressões que todos nós, trabalhadores, fizemos para ver as coisas mudarem um pouco de lugar. Se encontrar um casal assim, não brigue, ceda sua vez, você estará ajudando a fazer andar a fila da cidadania.

Vinício Carrilho Martinez

Professor Adjunto III da Universidade Federal de Rondônia - UFRO

Departamento de Ciências Jurídicas/DCJ

Pós-Doutor pela UNESP/SP

Doutor pela Universidade de São Paulo

 

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