Porto Velho (RO) quarta-feira, 11 de março de 2026
opsfasdfas
×
Gente de Opinião

Cultura

Curta “Kika Não Foi Convidada” destaca processo de formação de elenco mirim com oficinas, escuta sensível e código de conduta no set

Filme amazônico apostou em metodologias inovadoras para trabalhar temas como racismo e aporofobia com crianças, priorizando acolhimento, ética e proteção integral da infância


DIRETOR JURACI JÚNIOR E ELENCO INFANTIL - Gente de Opinião
DIRETOR JURACI JÚNIOR E ELENCO INFANTIL

O curta-metragem “Kika Não Foi Convidada”, escrito e dirigido por Juraci Júnior, está em fase final de edição e se prepara para a estreia nos próximos meses. Gravado na histórica Vila Candelária, em Porto Velho (RO), o filme aborda temas como racismo e aporofobia - termo que designa a aversão às pessoas pobres e à pobreza -, mas é o processo de produção, centrado na escuta, no respeito e na proteção da infância, que tem despertado interesse e reconhecimento no circuito audiovisual.

Inspirado em uma lembrança da infância do diretor, o filme narra as diferentes experiências de pertencimento e exclusão por meio da amizade entre Kika e Jordson, duas crianças que encontram uma na outra o poder de sonhar e resistir.

“Mais do que contar uma história, Kika Não Foi Convidada nasce do desejo de revisitar a infância pela lente da empatia e garantir que, dentro e fora da tela, as crianças fossem tratadas com o mesmo respeito que o filme propõe”, explica Juraci Júnior.

Guiado por esse princípio, o processo de seleção do elenco ocorreu de forma não convencional. Foram realizadas oficinas teatrais em escolas e associações de Porto Velho, conduzidas de maneira lúdica, não como testes ou audições, mas como brincadeiras, para evitar ansiedade ou frustração entre as crianças, com idades entre 8 e 12 anos.

“A ideia era que elas brincassem, se expressassem e se divertissem. Só depois souberam que aquelas dinâmicas faziam parte do processo de preparação do elenco”, conta Juraci.

A metodologia buscou garantir um ambiente de segurança e acolhimento, onde as crianças pudessem expressar suas emoções com liberdade. Para o diretor, o projeto reafirma o compromisso da equipe com um cinema amazônico feito a partir da escuta e do respeito, construindo pontes entre arte, educação e desenvolvimento humano.

ELENCO INFANTIL COM PSICÓLOGA ANNE CLEYANNE - Gente de Opinião
ELENCO INFANTIL COM PSICÓLOGA ANNE CLEYANNE

Preparação psicológica

Para tratar de temas delicados como racismo e aporofobia de forma ética e cuidadosa, a produção contou com acompanhamento psicológico e pedagógico especializado. Antes das filmagens, a psicóloga Anne Cleyanne, especialista em atendimento a crianças e adolescentes - que também acompanhou o processo de seleção -, conduziu rodas de conversa e oficinas sobre letramento racial, o histórico do racismo no Brasil e a análise de emoções, envolvendo o elenco mirim e toda a equipe técnica do filme.

Segundo Anne, o processo foi pensado para que as crianças compreendessem emocionalmente o que seus personagens viviam, sem se sentirem expostas ou sobrecarregadas. “O filme trata de questões que, no aspecto psicológico e emocional, são pesadas. Estamos falando de uma criança que sofreu racismo, exclusão e rejeição, e de outra que, pela inocência, ainda não via essas distinções”, explica, citando os personagens Kika e Enzo.

ELENCO INFANTIL EM ATIVIDADES LÚDICAS 2 - Gente de Opinião
ELENCO INFANTIL EM ATIVIDADES LÚDICAS 2

As oficinas foram realizadas de forma lúdica e interativa, com dinâmicas de colagem, pintura e rodas de conversa. “A ideia era que, dentro da idade deles, pudessem começar a entender o que é o racismo e a aporofobia, refletindo sobre por que algumas pessoas são tratadas de forma diferente apenas por sua aparência ou condição social”, detalha Anne.

Após essa etapa, o trabalho avançou para o campo das emoções, com atividades que ajudaram as crianças a identificar o que cada personagem sentia em diferentes momentos da história. “Trabalhamos expressões emocionais e empatia, para que eles entendessem o que os personagens viviam e conseguissem expressar isso com verdade, mas sempre com leveza, segurança e acompanhamento constante”, complementa a psicóloga.

O processo, segundo ela, foi essencial para que o elenco mirim transmitisse a mensagem central da obra. “O filme convida o público a não permitir que novas ‘Kikas’ sejam tratadas com exclusão. Que cada criança possa ser vista e respeitada em sua singularidade”, conclui.

Direitos das infâncias resguardados

Para garantir um ambiente de gravação saudável e seguro, a equipe técnica recebeu treinamento prévio e foi orientada a partir de um Código de Conduta elaborado exclusivamente para o projeto. O documento definiu três princípios fundamentais para o convívio e o trabalho com o elenco infantil, como: Proteção Integral, garantindo o direito da criança de ser protegida de qualquer forma de negligência, exploração, violência ou exposição indevida; Respeito à Infância, reconhecendo que a criança não é um “mini adulto”, mas um sujeito de direitos com tempo, corpo e emoções próprias; e o Consentimento Informado, assegurando que a participação estivesse condicionada à autorização formal dos responsáveis e ao assentimento direto e voluntário da criança.

CENA DO FILME - Gente de Opinião
CENA DO FILME

Segundo a advogada Thais Sales, especialista em audiovisual, cinema e artes, e consultora do projeto, a presença de crianças e adolescentes em obras audiovisuais exige atenção redobrada, em cumprimento às diretrizes do Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA).

Esses cuidados, explica Thais, envolvem desde a segurança no set, com a presença de profissionais de saúde quando necessário, por exemplo, até o respeito aos intervalos para alimentação, descanso e lazer, além da obrigatoriedade da presença de um responsável legal durante todo o período de filmagens.

A advogada destaca que essas normas foram integralmente observadas pela equipe de Kika, que construiu um ambiente de trabalho guiado pela ética e pela proteção integral, especialmente por se tratar de um curta protagonizado majoritariamente por crianças e adolescentes.

Embora o ECA proíba o trabalho infantil, ressalta Thais, a participação de crianças e adolescentes em obras audiovisuais integra o direito fundamental de acesso à cultura. Um direito que não se restringe ao consumo, mas também inclui o direito de produzir, criar e de se expressar artisticamente. “O direito à cultura não se limita a assistir, ler ou ouvir, mas também a fazer, a criar, a estar no centro do processo artístico”, finaliza a advogada.

O curta Kika Não Foi Convidada foi vencedor do 25º Laboratório de Projetos de Curta-Metragem do Festival Curta Cinema (RJ) e contemplado pelo Edital nº 01/2024 - SEJUCEL - Audiovisual - Bolsas para Artes em Vídeo - Lei Paulo Gustavo.

A obra ainda não tem data de estreia para o grande público, mas no dia 24 de outubro terá uma audição especial para o elenco e equipe técnica. Para saber mais, acompanhe @kikanaofoiconvidada no Instagram.

Gente de OpiniãoQuarta-feira, 11 de março de 2026 | Porto Velho (RO)

VOCÊ PODE GOSTAR

Escola de Samba Rádio Farol realiza primeiro ensaio para desfile de abril

Escola de Samba Rádio Farol realiza primeiro ensaio para desfile de abril

A Escola de Samba Rádio Farol realizou seu primeiro ensaio preparatório para o desfile que acontecerá no mês de abril. O encontro reuniu integrantes

UNIR abre inscrições para artistas participarem da V Mostra de Encenações do DArtes

UNIR abre inscrições para artistas participarem da V Mostra de Encenações do DArtes

Artistas, grupos e coletivos culturais de Rondônia já podem se inscrever para participar da V Mostra de Encenações do Departamento de Artes da Unive

Projeto OrÔ coloca a literatura negra no centro do debate cultural

Projeto OrÔ coloca a literatura negra no centro do debate cultural

Trazendo a cultura negra e periférica como pauta central, o Projeto OrÔ realizará diversas atividades com o objetivo de conscientizar, questionar e

Pontão de Cultura ACEMDA fortalece saberes tradicionais com oficina de artesanato com palha de buriti na 2ª Teia RO

Pontão de Cultura ACEMDA fortalece saberes tradicionais com oficina de artesanato com palha de buriti na 2ª Teia RO

O Pontão de Cultura Associação Cultural, Educação, Meio Ambiente e Desenvolvimento Sustentável Diversidade Amazônica (ACEMDA) promoveu, durante a 2ª

Gente de Opinião Quarta-feira, 11 de março de 2026 | Porto Velho (RO)