Quinta-feira, 4 de maio de 2017 - 07h27

O ex-presidente do Uruguai e atual senador José Mujica analisou, em entrevista concedida à revista semanal Caras & Caretas, o panorama geral da esquerda na América Latina e falou especificamente sobre o Brasil e a Argentina. Para ele, em ambos os países, há perspectiva de vitória de candidatos do campo da esquerda nos próximos processos eleitorais.
“O governo argentino está perdendo prestígio rapidamente e apela para a repressão. E Cristina (Kirchner) é astuta, está buscando reunificar o peronismo e, quando conseguir, Macri acaba, já que ele não ganhou, foi o peronismo que perdeu por suas divisões. Se isso é solucionado, adeus", acredita Mujica. "No Brasil, sabem que ou prendem Lula ou vão perder, já estão convencidos disso”, pontua, fazendo referência aos opositores do ex-presidente brasileiro.
Ele reafirma ainda que não será candidato à presidência após o término do mandato de Tabaré Vázquez. "Podem apostar dinheiro se quiserem", diz. Mujica fez uma crítica à atuação da esquerda no continente. “Temos de aprender com os erros que tivemos. Confundimos progressismo com esquerda. E na América Latina começamos a parecer bastante com a social-democracia europeia, que, de tanto ser pragmática e racional, deixou de ser esquerda”, reflete.
“Não podemos prescindir da batalha cultural, perdemos aí. Nós crescemos e nos convencemos de que a mudança das relações de produção traria como consequência imediata uma humanidade diferente e melhor. Não, fomos ingênuos. A cultura dura muito mais que a economia, se prolonga mais, se projeta adiante. Essa mudança é mais difícil e mais profunda do que qualquer mudança econômica”, pondera o ex-presidente.
Para Mujica, os trabalhadores devem assumir um papel de protagonismo em sua própria trajetória. “O que a história deixou deve ser estudado. Os trabalhadores nunca governaram, por mais que tenham sido feitas revoluções em seu nome. E a burguesia não está capacitada para liderar processos de mudança a longo prazo”, afirma. “Os trabalhadores devem aprender a governar a si próprios. E não devem depender do ‘papai’ Estado para se proteger porque o ‘papai’ Estado estará cooptado pela burguesia e vai se converter em burocracia. (Isso) Depende da classe que está no comando, e a classe trabalhadora não está.”
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