Quarta-feira, 18 de fevereiro de 2026 - 08h25

Eu não sei nadar. Consigo, sem problemas, entrar numa
piscina para me divertir. Mas se for num grande volume de água, como um lago, o
rio Madeira ou mesmo no mar, não me arrisco muito. Morreria afogado
rapidamente. Durante cinco anos de minha vida, entre 1981 e 1985, morei em
Calama no baixo Madeira e todo mês viajava de barco até Porto Velho. Ainda hoje
vou duas ou três vezes por ano até o distrito ribeirinho. Como não há estradas,
a única maneira é pegando um barco. Mês passado, por exemplo, fui até a Ilha de
Assunção para participar dos festejos em homenagem a São Sebastião. Muitas
pessoas de várias outras localidades também foram. E, claro, todos navegando
sobre as águas caudalosas do velho e lendário Madeira, hoje um rio quase morto
por causa das barragens em seu leito, porém ainda com uma profundidade enorme e
potencial de perigo.
Nestas embarcações observa-se quase sempre que os muitos
passageiros não usam seus flutuadores. Nenhum deles e nem a tripulação. A
profundidade média do velho Madeira nesta época de inverno ultrapassa os 10 ou 15
metros facilmente. Sempre que eu viajo uso o colete que comprei. Não sei nadar
bem e além do mais “não sou cristão para andar sobre as águas”.
Nas lanchas rápidas, às vezes são mais de 90 passageiros e somente eu usando
aquela boia salva-vidas. Nos barcos, o número de passageiros é até maior
chegando às vezes a 200 pessoas. E todos sem o colete. E todos me
ridicularizando e fazendo piadas comigo. Usar o colete salva-vidas é se
precaver do perigo que pode, a qualquer momento, acontecer. Ninguém entra em um
carro hoje e deixa de usar o cinto de segurança, por exemplo. “Evita-se
levar as multas das autoridades de trânsito”, dizem.
Raríssimas pessoas pilotam uma motocicleta sem o seu
capacete. Além da multa, preteje-se a vida também. Mas em um barco de recreio
nos rios amazônicos quase ninguém quer usar o colete. No recente naufrágio da
lancha rápida no encontro das águas perto de Manaus possivelmente poucos passageiros
estavam usando. Percebe-se pelas imagens das pessoas boiando nas caudalosas
águas do Solimões e do Negro. O saldo até agora é trágico: pelo menos 3
mortos e 6 desaparecidos. A profundidade média ali é quase 90 metros. A lancha
que afundou está lá embaixo a mais de 50 metros na escuridão misteriosa. Há um
relato de uma mãe que deu o colete que estava usando para salvar seu filho. O
rapaz conseguiu escapar, mas a cuidadosa mãe afundou para sempre ali. Se ambos
estivessem usando obrigatoriamente o utensílio é bem possível que tivessem
saído ilesos.
Para se navegar no rio Sena em Paris, é obrigatório o uso de
coletes salva-vidas em todos os passageiros. E o rio parisiense é raso e
estreito se comparado ao Madeira, Negro, Tapajós, Amazonas, Solimões ou outros
rios amazônicos. O Sena não oferece perigo algum. No rio Danúbio em Viena é a
mesma coisa: rigor na segurança. No barco Bateau Mouche, por exemplo, é obrigatória
a presença de um marinheiro e de um bombeiro em todas as viagens para evitar qualquer
risco. Mas Paris e Viena são Primeiro Mundo, bem diferentes das barrancas esquecidas
dos perigosos rios amazônicos. Em Porto Velho, para se pegar um barco o perigo
já começa em terra: descer um vergonhoso barranco íngreme, enlameado,
escorregadio e traiçoeiro. Quando uma embarcação dessas afunda, assolada pelos
terríveis banzeiros, não dá tempo para nada. Se estiver sem a boia, já era! Não
conheço a legislação, mas sei que a Marinha do Brasil obriga o uso do
colete.
*Foi Professor em Porto
Velho.
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