Quinta-feira, 9 de junho de 2022 - 18h46

A velhice e o saudosismo
costumam trilhar os mesmos caminhos, comandando a máquina do tempo através de
um clichê mental, em que só se engrena uma marcha: a ré! Solidão e recordação
vão além da rima, é como se o passado alimentasse de prazer instantes de
reflexão do presente, projetando um futuro pintado de esperança, no compasso da
saudade.
Nos finais de tarde costumo
postar-me diante do sol, com o Madeirão abaixo da linha do horizonte dos meus
olhos, inevitável a transformação dos meus pés em pés de curupira. Tudo se
volta nostalgicamente ao passado. E rio, e choro, e escrevo, e deixo marcas ao
porvir...
Contudo, ao tentar expressar o
passado a partir do presente, deparei-me com a visão de Nietsche, dizendo da
impossibilidade de se determinar a extensão do presente, sabendo-se que não há
sobras entre uma fração do tempo que passou e a expectativa do tempo que virá.
Pirei! Filosoficamente racional, porém íntimo dos fantasmas poéticos que reinventaram
o tempo e o humano, até aceitei a inexistência do presente, o vácuo intemporal
que o filósofo rotulou de nada, a teoria do nada, mas, em contrapartida,
agasalhei no íntimo uma dimensão estática de vasto repertório, alheia ao tempo,
como se a manifestação material do espirito, que alimenta a poiesis, que para a
transitoriedade, que gera a arte.
O momento da criação artística
está protegido num bunker poético sem janelas visíveis, um portal da palavra
sentida. Pouco importa se o start criativo se alimenta de passado, presente, ou
futuro, está isento de ingerências filosóficas ou científicas temporais.
Quando eu ultrapasso a janela
fortificada invisível, recebo o halo que determina o ponto de partida das ações
artísticas: daqui eu volto, daqui eu sou, daqui eu vou, mesmo sabendo que a
mandala existencial não é um círculo: sou, vou, mas não voltarei, não me iludo
com o pós, ele não passa de um prefixo vaidoso, fugitivo da hermenêutica
epistemológica bíblica, que elevou pó ao plural, querendo ultrapassar os
limites da ontologia. Invenção do pavor humano ao pós mortem! ...
A intemporalidade da arte
ultrapassa todas as barreiras, transpõe a realidade alternativa, viaja fora do
tempo e nos eleva a um estado acadêmico mítico imortal, onde passado e futuro
se mesclam ao transcendente, formatando uma estética diferenciada, percebida no
horizonte da janela do prazer criativo, vista só decodificada pelos amantes das
artes literárias.
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