Segunda-feira, 27 de dezembro de 2021 - 09h26

Subia
os Clérigos, quando deparo antigo condiscípulo, companheiro de muitas horas de
lazer.
-
Há séculos que não te vejo? O que é feito de ti?
-
Vivo no interior – respondeu-me o Júlio
-
Fizeste bem, há por lá ar mais puro, isento de poluição...
-
Não o fiz por prazer – lamentou-se, mostrando fisionomia tristonha.
-
Gostava de viver na cidade, onde tenho velhos amigos. O campo não é bom para
mim. Gosto de movimento. Sou citadino por natureza, mas...
Explicou-me,
então, a triste sina. Reformou-se no início do século. Não era muito, mas ia
chegando...
Com o correr dos anos a reforma degradou-se.
Aumentou
a renda da casa, substancialmente; aumentaram os géneros alimentícios.... Tudo
vai aumentando, menos o que se recebe mensalmente.
Acrescentou,
ainda com mágoa: as reformas mínimas têm subido, embora menos do que seria
necessário; mas as outras?
O
Júlio, desanimado, comentou de voz apagada, estar arrependidíssimo de não ter
tentado lá fora, quando era novo:
-
Se tivesse emigrado, quem sabe, se não teria reforma mais confortável, para
passar a velhice melhor? Quem sabe? Ainda quem recebe duas reformas, vai
aguentando, mas eu, que nunca quis que minha mulher trabalhasse.... Sabes? No
nosso tempo os homens não queriam viver à custa das mulheres. Era ponto de
honra. O marido devia sustentar a família. A esposa era dona de casa: cuidava
dos filhos e levava a termo o governo da casa.
Tive
pena do Júlio. Embora a minha situação não seja muito melhor.
Bem
sei que na aldeia, como disse o Júlio, a vida é mais simples. Sempre há
lavradores que oferecem punhado de batatas, mão cheia de feijões, e pinga de
azeite.
Mas
é triste chegar a velho e não ter fim de vida sossegado e feliz.
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