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Crônica

As janelas do ser


As janelas do ser - Gente de Opinião

São tantas as vistas naturais do universo e suas consequências no emocional, que as pessoas, entre exclamações e interrogações, diante do mar, de rios e igarapés, da floresta, de um jardim, da fauna, de uma cachoeira, do pôr do sol ou da aurora, até esquecem das janelas e vistas artificiais, edificadas, ao longo do tempo, pelo conhecimento, pelo saber, verdadeiros alicerces do ser e daquilo que chamamos de humano.    

Ah! se todos tivessem a perspicácia intelectual de ver o mundo através de janelas artificiais, deixar de olhar apenas até onde a vista alcança e, com olhos invertidos, mediante estudos, buscar outros horizontes, na literatura, no cinema, no teatro, nas artes plásticas, na música... Ah! como o mundo seria diferente!

Imaginem se a grande maioria da humanidade pudesse abrir as janelas de Shakespeare, deixando-se invadir pela “invenção do humano” através das vistas de Hamlet, Rei Lear, Otelo, Romeu e Julieta, e tantos outros personagens sugestivos, oriundos da verve do bardo saxônico. Ah! como o mundo seria diferente!

Imaginem quantos ais de prazer reverberariam ao longo do tempo se todos os estudantes, especialmente os universitários, ganhassem significativa experiência, absorvendo as vistas das janelas de escritores, como Cervantes, Balzac, Júlio Verne, Victor Hugo, Tolstói, Dostoievsky, Machado de Assis, Hemingway, Neruda, Fernando Pessoa, William Haverly Martins, Viriato Moura, José Dettoni, Júlio Olivar, Walter Barianni, Délcio Pereira, Celeste Souza e tantos outros, feito aperitivo de um grande “porre intelectual”, uma espécie de ponche de letras, mistura inebriante não só de romancistas, contistas, cronistas e poetas, mas também de filósofos, sociólogos, historiadores... Ah! como o mundo seria diferente!

Imaginem se todos os humanos, ao adentrarem salas de cinema ou da TV de sua casa, entendessem a linguagem cinematográfica, compreendessem a releitura crítica de diretores, ao filmarem romancistas de todas as épocas, sem esquecer a obra de grandes e criativos roteiristas. Imaginem se todos percebessem a linguagem dúbia, às vezes sarcástica, cômica, criativa, interativa e vidente do teatro. Ah! como o mundo seria diferente!

Imaginem se as artes plásticas realmente preenchessem os vazios humanos, e se deixassem admirar pelos olhos da alma, ao longo dos anos, como se fossem espelhos mágicos, que ao serem mirados, refletissem a estética, enquanto estudo da natureza, do belo e dos fundamentos da arte. Ah! como o mundo seria diferente!

Imaginem se todos tivessem acesso à composição erudita, ou, pelo menos, à música de boa qualidade, como a bossa nova, a tropicália, o baião, o samba de raiz, o forró, a ciranda, o quanto acrescentariam ao intelecto, pelas vistas das janelas artificiais de grandes compositores.

Imaginem gratificar os ouvidos com clássicos como Bach, Vivaldi, Wagner, Beethoven, Mozart, Tchaikovsky, Rachmaninoff e outros gênios da música, interpretados em salões ou praças públicas, por grandes orquestras sinfônicas.

Ah! como a vida seria diferente se vivêssemos num mundo, como se fosse um grande país, com isonomia total, sem fronteiras intelectuais, sem guerras, tendo as artes, como um todo, distribuídas democraticamente por todas as classes, dando ao material o orgulho do “humano”, a principal vista da janela do possível criador da perfeição.

Ah, se isso fosse possível, todas as janelas seriam, simbolicamente, resumidas a uma única, e nós seríamos a vista singular da imagem e semelhança de Deus.

Mas porém todavia entretanto, me incomoda a palavra TODOS: apesar da aparência e comportamento divinos, seríamos criaturas apáticas, sonolentas, iguais, vivendo feito zumbis do bem, pelos corredores do paraíso. É a diferença que nos torna grandes e agradáveis, a vitrine inspiradora. É o esforço pelo aprimoramento nos estudos que aviva nossa vaidade cultural e estimula nossa vontade de viver; que nos proporciona o ter, que protege e melhora o ser.

Mesmo que os governos proporcionem oportunidades iguais e garantam bons índices de desenvolvimento humano, é praticamente impossível a janela do ser gerar vistas artificiais completas e satisfatórias a todos e em todos os lugares. Cada cabeça é um mundo. Cada qual segue suas preferências, fazendo escolhas diferenciadas, ainda que exista um senso comum direcionador, capaz de interferir no gosto de cada um, mostrando qual vista artificial deve ser seguida, qual pode atapetar as vias da existência.

Mesmo que não atinja a todos, nossa luta deve continuar, pela paz, por melhores condições de vida, advindas das administrações governamentais, dos estudos e do adjutório das artes, de tal forma que as vistas das janelas naturais e artificiais, nascidas a partir dos sentidos, possam caminhar juntas, uma olhando para fora, outra para dentro, desnudando as vistas prazerosas das janelas das utopias.

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