Quarta-feira, 10 de fevereiro de 2016 - 07h10
Bruno Peron
A fundação da Comunidade dos Países de Língua Portuguesa (CPLP) em julho de 1996 tem o propósito mais de inserção política que de integração cultural nas relações internacionais. Deduz-se dos discursos de seus porta-vozes que a coesão entre países lusófonos tem importância global no que se refere pelo menos à grandeza de seu território e seu número de habitantes.
Os integrantes da CPLP são: Angola, Brasil, Cabo Verde, Guiné-Bissau, Moçambique, Portugal, e São Tomé e Príncipe. Timor Leste entrou na CPLP em 2002 após a independência timorense. Mais recentemente, o pedido de Guiné Equatorial – país que fica na costa oeste da África entre Camarões e Gabão – para aderir ao bloco está sendo avaliado pelos integrantes atuais.
É um dado histórico relevante que Portugal foi pioneiro nas navegações marítimas que expandiram os limites coloniais, populacionais e territoriais da Europa; antes mesmo que França e Inglaterra se tornassem senhores do mar. Nessa aventura portuguesa, a tripulação descobriu terras longínquas e estabeleceu entrepostos comerciais chamados feitorias em lugares tão diversos quanto ilhas africanas e zonas costeiras americanas.
A disputa com outros povos (sobretudo espanhóis, franceses, ingleses e holandeses) logo se tornou intensa e motivo de negociações e tratados. Houve, para muitos, um dilema entre expandir para sobreviver ou acomodar para perecer. E tem sido assim por muito tempo. Em tempos atuais, países aliam-se para defesa, fortificação, trocas comerciais e outras finalidades do regionalismo. Acrescento que ser regional deixou de ser equivalente a ser vizinho devido à presteza das comunicações e dos transportes.
Imagino que tenham pensado assim os estadistas que dialogaram durante a Primeira Conferência de Chefes de Estado e de Governo dos Países de Língua Portuguesa que teve lugar em Lisboa em julho de 1996. Entraram em acordo para seguir os objetivos seguintes: busca de conciliação política e diplomática, promoção e difusão da língua portuguesa, resolução de conflitos que afetem algum integrante, e cooperação e união em todos os domínios (pensando sobretudo em temas de economia, educação e sociedade).
Os países da CPLP cooperam em âmbitos diversos, divulgam a preciosidade da língua portuguesa (principalmente através do Instituto Internacional da Língua Portuguesa), e fomentam a cidadania e a circulação de pessoas entre seus países. Em Portugal, já existe este mecanismo, assim como o Passaporte Andino permite o fluxo livre de pessoas entre países da Comunidade Andina de Nações (Bolívia, Colômbia, Equador e Peru).
É perceptível que os países da CPLP somam uma região geocultural extensa com aproximadamente 280 milhões de falantes de português em quatro continentes. Além disso, há um país europeu (Portugal), um que conduz ações duvidosas para ter influência como “emergente” no mundo (Brasil), e outros que têm territórios extensos na África (Angola e Moçambique).
O regionalismo transcontinental – como entendo a proposta da CPLP – é uma estratégia eficaz para preservar culturas e modos de vida, ampliar e diversificar o comércio, e facilitar a circulação de pessoas. Esses caminhos de coesão política delineiam-se num momento em que brasileiros pouco sabem de moçambicanos, e angolanos desconhecem timorenses.
Portanto, a CPLP busca, através de elementos comuns como a língua e outras tradições herdadas de Portugal, integrar áreas distantes, reduzir o estranhamento, e promover intercâmbios maiores no mundo lusófono.
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