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Futebol, o ópio dos idiotas



Professor Nazareno*

            Assim como para Karl Marx, Deus é o ópio do povo, também para muitas pessoas esclarecidas, o futebol é o ópio do brasileiro otário e trouxa. Esporte das multidões, eterna mania nacional e uma das paixões do Brasil, “jogar bola” assumiu definitivamente um lugar de grande destaque entre todos nós. Cinco vezes campeão mundial, não se vislumbra o país sem este esporte. Por movimentar milhões e até bilhões de reais, não demorou muito para que os interesses escusos e as maracutaias passassem a fazer parte dos times em todas as esferas e campeonatos disputados mundo afora. Se na política brasileira, a corrupção, a roubalheira, a cara de pau e os desmandos tomaram conta de tudo e de todos, por que seria diferente com esse esporte? Porém, para muitos incautos, tudo isso é mentira e o que vale é o amor ao seu time do coração.

            A recente decisão do STJD, Superior Tribunal de Justiça Desportiva, em livrar cinicamente pela segunda vez o Fluminense do Rio de Janeiro da Série B do Campeonato Brasileiro e com isso punir e rebaixar a Portuguesa de Desportos de São Paulo, time de menor expressão e torcida, é uma mostra clara de como a corrupção e a falta de seriedade contaminaram há muito tempo esse esporte. Claro que para muita gente, futebol é esporte e esporte é saúde. Mas no Brasil, futebol virou uma força de alienação muito grande das massas ignaras. Torcer por qualquer time seria a coisa mais normal do mundo em um país civilizado. Só que por aqui, incentivado por pessoas interesseiras e ambiciosas, virou paixão desmesurada, doença, fanatismo, arrebatamento e está acima dos valores da religião, da família, da educação, do lazer e do bom senso.

            Conheço muitas pessoas que torcem apaixonadamente por um time que dizem ser do coração deles. Perdem trabalho, fazem apostas, promovem brigas, desfazem amizades, até esquecem a família pelo “Framengo, Curintia, Vasco, Palmeira ou outra porcaria qualquer”. É de fazer dó e piedade ver isto, pois com o conhecimento que dizem ter, poderiam facilmente perceber que estão sendo usados por interesses escusos. Cegos de paixão, muitos agem como os corintianos presos na Bolívia por terem matado gratuitamente um torcedor local com um rojão ou os vândalos que se engalfinharam numa briga sem precedentes no jogo entre Atlético de Curitiba e Vasco da Gama pelo último campeonato brasileiro. Movidos pelo fanatismo, não perceberam que o futebol só atrapalhou ao esfriar as manifestações populares no Brasil de junho de 2013.

            Esse mesmo fanatismo oco, senso comum e estúpido dos brasileiros babacas e “morde-fronha” não permite perceber que vamos gastar 30 bilhões de dólares (mais do que a soma das três últimas Copas) para promover um evento que nada trará de benefícios para nós, mortais comuns, atolados em falta de infraestrutura, sem hospitais, sem transportes públicos, sem escolas, sem saneamento básico, sem nada.  Além dos jogadores, já ricos e famosos, só quem ganha são os que já têm muito dinheiro. Com toda esta fortuna, muitas coisas poderiam ser feitas neste rico país de pessoas pobres, bobas e miseráveis. O Brasil e os brasileiros não precisam de estádios nem de futebol. Precisamos de dignidade, de mais conhecimentos, de centros de pesquisas, de bons hospitais, de boas escolas e universidades. Mas como “é muito difícil libertar os tolos das correntes que eles veneram”, vamos pelo menos torcer contra o Brasil na Copa e esperar que o ódio pela derrota desencadeie protestos por um país melhor para todos.

*É Professor em Porto Velho.

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