Porto Velho (RO) sexta-feira, 13 de março de 2026
opsfasdfas
×
Gente de Opinião

Opinião

Hipnose faz milagres


Hipnose faz milagres[1]

Felipe Azzi

                O espetáculo era de hipnose consensual e ia a vela solta no Cine Guarani. O hipnotizador prático, Dom Beltran Alvarado, assegurava que com o sono induzido a pessoa ficava liberada de traumas de infância, de manias cismáticas, além de abrir o entendimento para enfrentar desafios.

                O povo de Guajará era ressabiado com esses exibicionismos. Em outras ocasiões, houve frustrações do público diante de coisa preparada, sempre repudiada com algazarra uníssona:

                – É truque... Aqui ninguém é besta... É truque!

                Mas esse caso foi diferente. Dois figurões da cidade foram devidamente adormecidos e houve até quem adquiriu a desfalência hipnótica através do rádio, no que resultou reavivar a pessoa com um porrete.

                Caso mais espantoso foi o da viúva Flordeliz Guaraciaba, uma que fazia rebuçados de cupuaçu, conhecida como “Florzinha”. Mesmo na plateia, fora do alcance da mirada hipnótica de Beltran, foi contaminada com um desfalecimento de maus bofes, que o hipnotizador teve que usar um alicate de aperto para acordá-la.

                Neste mundo novamente, já no uso da razão, ela saiu cinema afora e pegou motocicleta descuidada, colocou o capacete, vestiu a jaqueta de couro e foi em disparada no rumo do Palheta, propalando para os ouvidos de plantão:

                – Comigo é no modernismo... Não quero que aconteça com a minha pessoa o que sucedeu à comadre Tiburcina que, por não aderir ao progresso, acabou embaixo de sete palmos de terra, sem nunca desfrutar dos benefícios de pilotar uma lambreta!

                 Duas quadras adiante, foi contida por um meganha avulso que transitava na sua rota, deste modo encastoado:

                – Pare, minha boa velha... Desse jeito a senhora se esborracha no primeiro poste!

                Ao que Flordeliz retrucou:

                – Boa velha, não, seu descarado... Mais respeito! E não fica falando comigo feito peça de museu. Saiba o moço de farda cáqui que depois da hipnotização remocei vinte anos e estou pronta para tomar compromisso novamente, só falta deliberar qual o pretendente!

                E mais não aprontou porque seus netos, sabedores do acontecido, rebocaram dona Florzinha para os cuidados da família.

               



[1] Nesta crônica, meio verdade, meio fantasia, presto tributo implícito a duas pessoas muito queridas; Maria Assad Azzi, a Merim dos bombons de cupuaçu, minha irmã caçula; e Merandolina Marques, a doce “Doca” que muitos conheceram. Duas rosas de “Limoeiro do Rio São Miguel” que hoje enfeitam o Jardim do Senhor.

Gente de OpiniãoSexta-feira, 13 de março de 2026 | Porto Velho (RO)

VOCÊ PODE GOSTAR

Vorcaro, uma bomba ambulante prestes a explodir!

Vorcaro, uma bomba ambulante prestes a explodir!

Estava pensando outro dia como Daniel Vorcaro conseguiu montar uma máquina de corrupção tão sofisticada, a partir de um banco modesto, sem nenhuma e

Os Lusíadas e o espelho partido do mundo

Os Lusíadas e o espelho partido do mundo

Do Adamastor, o gigante de pedra e medo, ao tempo do Diabo contra o Diabo, onde já não há deuses, só abismos a fitarem-se Em 12 de março, sopram quatr

Precisamos da bomba atômica

Precisamos da bomba atômica

O Brasil precisa urgentemente de ter uma bomba atômica. Não! Não é para atacar ninguém e muito menos para jogar em nenhum outro país, mas para impor

Câmara Municipal de Porto Velho vive crise de “ingerência”

Câmara Municipal de Porto Velho vive crise de “ingerência”

É mais ou menos isso que se pode inferir das palavras do médico dermatologista e vereador José Iraci Macário Barros, durante recente entrevista ao j

Gente de Opinião Sexta-feira, 13 de março de 2026 | Porto Velho (RO)