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Política - Nacional

Em Olinda, maracatu difunde raízes africanas no carnaval


Manuela Castro
Enviada especial da TV Brasil/EBC

Em uma pequena sala comercial, no Bairro de Peixinhos, em Olinda, vários tambores ficam espalhados pelo chão. Esta é a sede do grupo de maracatu Maracambuco. Além dos instrumentos de percussão, que fazem parte da essência do carnaval de Pernambuco, o que mais chama a atenção é o colorido das fantasias dos orixás, como a de Ogum, Deus do Ferro e da Guerra, e de Iemanjá, a Rainha do Mar.

Praticantes do candomblé representam essas divindades ao longo de toda o carnaval, nos grupos de maracatu. A religião, de matriz africana, encontrou na folia espaço para expor a fé, que tevem origem com os escravos.

A estrela e protetora da festa é a calunga, uma boneca negra, mística para o candomblé. Nilo Oliveira, fundador do grupo Maracambuco, explica que é a figura máxima do maracatu. “A calunga representa os espíritos antepassados. A minha calunga se chama Isabel Arruda de Oliveira. Representa toda a energia que vem das nações de maracatu e protege todos que estão desfilando.”

A calunga é tão importante que tem uma dama só para carregá-la. No Maracambuco, a guardiã é a operadora de telemarketing Karla Nascimento, responsável por carregar não apenas a responsabilidade, mas também o peso da boneca, toda feita de madeira. “Ela pesa em torno de 15 quilos. Quando estou dançando, pesa ainda mais, tenho que ficar mudando de braço”, conta Karla.

No grupo, a mistura de festa e religião também vem com mais um elemento: a ação social. O auxiliar de serviços gerais Júnior Monteiro é percussionista do grupo. Participa dos ensaios todas as quintas-feiras. Além de aprender a tocar, ele recebe orientação profissional. “Aqui eu consegui meus documentos. Antes, eu fugia para não ter que correr atrás da minha documentação, mas no Maracambuco aprendi a importância de ter tudo certinho para o meu futuro profissional”, diz Monteiro.

Um dos momentos mais esperados por todos os maracatus é a Noite dos Tambores Silenciosos. No dia da festa, todo mundo capricha no visual e ensaia muito para a noite que é considerada a apoteose. O lugar escolhido para o encontro dos grupos e para o culto às divindades de origem africana não é um terreiro do candomblé, e sim o pátio da Igreja Católica de Nossa Senhora do Rosário dos Homens Pretos.

A mistura de religiões também nasceu na senzala, de acordo com o presidente do maracatu Leão Coroado, o pai de santo Afonso Filho. “Esta foi a primeira igreja que abriu as portas para nossos ancestrais. Antes, eles eram enterrados como cachorros [sem identificação], não tinham nome certo nem direito a um batismo. Mas a Igreja do Rosário dos Homens Pretos mudou tudo isso, abriu as portas para nosso povo, está aí uma coisa que a gente não esquece nunca.”

Todos os nove maracatus de Olinda participam da festa, onde se purificam para o carnaval, fazem um culto aos ancestrais e ainda se apresentam para os foliões no sobe e desce das ladeiras. Cada grupo tem um rei e uma rainha, com suas roupas soberanas. Isso para lembrar os antepassados, que conseguiam roupas velhas dos senhores de engenho para usar, de forma escondida, nos cultos religiosos.

O próprio nome do festejo, Noite dos Tambores Silenciosos, é justamente para homenagear aqueles que eram obrigados a esconder a própria fé, como explica o babalorixá e pai de santo Ivo de Xambá. “Faziam cultos em silêncio, quando na verdade sonhavam em tocar os tambores para nossas divindades.”

Para que os tambores não se calem nunca mais, à meia-noite todos os grupos tocam juntos, bem alto, e cantam as loas, que são os louvores. Depois, seguem pelas ladeiras de Olinda e se despedem de centenas de pessoas que acompanham os rituais.

Em Olinda, os maracatus ganham cada vez mais espaço. O grupo Maracambuco foi escolhido como um dos homenageados do Carnaval 2014. No ano passado, o grupo recebeu a Ordem do Mérito Cultural, a mais alta condecoração oferecida pelo Ministério da Cultura. Para o fundador do Maracambuco, é o sinal de que os maracatus estão conseguindo seu lugar. “Maracatu não é só cultura, é história que não pode ser apagada. Sofremos muito preconceito, mas somos filhos de Iemanjá, muito persistentes. No fim, quem manda é o mar”, diz Nilo Oliveira.

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