Terça-feira, 19 de fevereiro de 2008 - 07h06
Alex Rodrigues
Agência Brasil
Macapá - Vítimas de uma tragédia ainda pouco conhecida no resto do país, homens, mulheres e crianças ribeirinhos vêm sendo desfigurados ou mortos em acidentes ocorridos em embarcações que percorrem os rios, igarapés e lagos da Amazônia.
Na região, essas pessoas são conhecidas como as vítimas do escalpelamento, referência às mulheres que tiveram o cabelo e toda a pele do crânio arrancados por eixos de motores improvisados.
Por manterem cabelos compridos de acordo com os costumes ribeirinhos, as mulheres, incluindo crianças, são quase a totalidade das vítimas. Também há casos de homens que perderam a genitália ao serem puxados pelas calças ou pelos shorts.
Além das mutilações, há os casos em que a pessoa tem o pé quebrado após prendê-lo em uma polia, ou então sofre queimaduras ao se encostar no cano de descarga do motor, que também fica exposto.
Em geral, os eixos ficam escondidos sob pequenas tábuas de madeira, no assoalho dos barcos. É comum nas embarcações menores os passageiros viajarem sentados em bancos sobre o eixo.
Nos barcos maiores, é possível encontrar redes de dormir estendidas até mesmo sobre o motor. Basta um descuido para que o cabelo ou partes da roupa se enrosquem nas partes mecânicas à mostra.
Desde 2003, 244 casos foram registrados somente no Amapá, onde o governo estadual estima que haja 1.400 vítimas. Vivas. Fora as que morreram e foram registrados como casos de hemorragia, diz a secretária extraordinária de Política para Mulheres, Ester de Paula de Araújo.
O problema, apesar do número de vítimas, parece ser de fácil solução. O governo do estado do Amapá, por exemplo, estuda distribuir, gratuitamente, um kit de segurança para cada dono de barco. Segundo Ester, cada conjunto de metal para cobrir motor e eixo custará cerca de R$ 100.
O gasto será dividido entre os governos estadual e federal. Tão logo o equipamento seja disponibilizado, a idéia é torná-lo obrigatório. A fiscalização caberá à Marinha, à Secretaria de Transportes e à Associação de Mulheres Ribeirinhas e Vítimas de Escalpelamento da Amazônia.
Conversando com a secretária e com as vítimas, fica claro que o problema ocorre por uma conjunção de fatores, como improvisação, falta de fiscalização e de campanhas educativas sobre os riscos de viajar em barcos com o motor desprotegido.
Segundo a presidente da Associação de Mulheres Ribeirinhas e Vítimas de Escalpelamento da Amazônia, Maria do Socorro Pelaes Damasceno, apesar dos inúmeros casos, os donos de barcos tendem a acreditar que as tábuas improvisadas sobre o eixo serão proteção suficiente.
De acordo com Socorro, tanto o balanço do barco pode afastar as tábuas, expondo os passageiros ao perigo, quanto uma pessoa pode, por descuido, pisar sobre elas.
A fiscalização, a cargo das secretarias estaduais de transportes e da Capitania dos Portos é dificultada pelo grande número de barcos existentes. Em toda a Região Norte, o transporte fluvial é o principal meio de locomoção, seja em grandes embarcações, seja em pequenas lanchas familiares.
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