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Vinício Carrilho

Educação: ponte ou obstáculo para o futuro?


Educação: ponte ou obstáculo para o futuro?  - Gente de Opinião

      Pensemos que, mesmo afogados por tantos ataques à educação, com a protuberância de concepções ideológicas retrógradas – como ocorre com a punição de vítimas –, com negacionismos em afronta à racionalidade, crescimento do racismo, da misoginia, o aprofundamento da desigualdade social, e mais, sempre convergindo para a “normalização da exceção” – quando a regra deveria ser o oposto do retrocesso moral/social –, mesmo com tudo isso, a Educação está colocada no centro de uma ativa luta política.

Pensemos que não são apenas pautas consideradas impensadas dez anos atrás – como a militarização das escolas, o ensino religioso e disciplinas impostas na linha da “educação financeira” –, como, além disso, são corroídas, corrompidas, e estão desabando as garantias e algumas poucas reservas de qualidade científica, filosófica, ética.

Nessa esteira, disciplinas como sociologia e filosofia, antes combativas, hoje são combatidas com a imposição de propostas e implementações institucionais. Se antes eram disciplinas obrigatórias, com fundamentos no desenvolvimento do raciocínio lógico-dedutivo e na avaliação racional, conceitual e crítica (histórica) que expõe o Brasil como um país cindido, aterrorizado com a desigualdade e a miséria social, hoje estão escanteadas por estruturas neoliberais, utilitaristas, tecnicistas.

Se o fundamento, além de moral e social (combater as injustiças, a desigualdade), era a fonte que “provocava” uma reflexão a partir das condições materiais existentes e das subjetividades que daí pudessem surgir, isso ainda fomentado enquanto pensamento crítico – epistemologicamente correto – e capaz de encetar e de concatenar a realidade mediante as situações objetivas, promovendo-se o desenvolvimento analítico e crítico, hoje, pensemos com a certeza do realismo que, além de se desprezar tudo isso com normativas e instrumentação institucional, a mera burocracia que apenas emperra o pensamento criativo, ainda se (re)produz uma “cadeia de comando economicista” no horizonte de eventos: essa da irracionalidade e da injustiça acachapante.

Um exemplo seria suficientemente lógico para vermos a consequência, pois, se somos estimulados a verificar e avaliar os níveis existentes de injustiça (sem que isso ocorra como ato cínico), se somos educados para pavimentar valores, princípios e pressupostos a partir dos quais a desigualdade jamais pode ser confundida com diversidade, então, o que se espera ao final desse processo?

Sem nenhuma consideração ao cinismo, à apatia dolosa, programada, instituída, espera-se e podemos pensar, por óbvio, que essa reflexão lógica e crítica nos direcione a alguma forma de ação. Perpassada pela indignação diante do descalabro, da miséria e da irracionalidade crescente, esse pensamento crítico, “inculcado como a metodologia viável” – especialmente na escola pública –, nos indica que a ação de transformação será a resposta seguinte àquela inicial indignação. Essa conclusão lógica só pode desencadear em ação não-conformista, como consciência do que do que precisa ser feito.

Mais ainda, é preciso pensarmos como clareza, porque é muito fácil percebermos como nesse exemplo simples se justapõem a filosofia e a sociologia – e isso nos comprova, se seguimos a racionalidade a partir da realidade que nos engloba, como devem ser obrigatórias na educação pública.

Essa constatação que apresentamos como exemplo não é uma posição ideológica, militante, é um pensamento lógico, com conclusão racional, sobretudo se pensarmos que a práxis, como forma legítima da ação humana, é formada, precisamente, pela nossa capacidade de associar reflexão (indignação) e ação (transformação).

Ou seja, se a reflexão que propomos é honesta (lógica e ética) devemos retomar o pensamento lógico de que a ação exige transformação profunda, mormente porque temos em vista que a injustiça social é a regra da sociedade capitalista, mas, além disso, é a matriz da sociedade brasileira, herdeira de uma escravidão secular, do racismo que prolifera, da misoginia e do ódio social.

Neste sentido, está claro como se opõem duas visões de mundo, em conformidade com “o que vemos, pensamos e como  agimos no mundo”: (i) Uma, aquela que decorre do militarismo, da negação do Estado laico, da imposição de uma suposta “educação financeira” – quase que exclusivamente para pobres, negros e oprimidos –, é impostora da racionalidade, é negacionista da realidade social e se apresenta, obviamente, como projeto político baseado numa relação de domínio (daí o obscurantismo que resplandece atualmente), e (ii) a outra, sendo esta pautada na melhor educação pública possível, de qualidade, republicana, acessível e inclusiva: dirigida e direcionada, do começo ao fim, pela autonomia, emancipação, isonomia e equidade.

Portanto, como consequência, outra vez lógica, devemos pensar que o projeto atual domínio como escrutínio (e não a “dominação racional, ética, legalmente democrática”), enquanto o outro, que destacamos como “o que deve ser”, tem por eixo o conhecimento aprofundado, constituído socialmente por meio da práxis (reflexão lógica e ação responsável), a exigir mudanças e transformações condizentes com alguma ideia razoavelmente de futuro planejado, esperado, socializado em alcance e realização por todos os indivíduos subalternizados e oprimidos.

Todavia, como vimos, os nossos atuais atavismos estão em estreita comunicação com os piores males sociais e morais, absolutamente danosos, que nossa história pôde constituir.

Por fim, também não seria necessário esclarecer – ainda que estejamos tratando com o Esclarecimento – mas, assim concluímos com a nota de que a Educação do futuro depende muito mais da reflexão e da ação (conjugadas socialmente no presente) do que de técnicas refinadas e ilusionistas da modernidade.

No mesmo sentido lógico, basta dizer que esse futuro emprenhado é devedor do presente malnutrido pelo passado que teima em ficar; do passado vieram a indiferença, a apatia, o comodismo, a recorrente “alienação” e, no presente, vemos, com a licença poética, insculpir-se um tipo de Abdução social, algo como um profundo desprezo confesso, publicamente, pela mínima sociabilidade. Se o presente ainda é absolutamente predizível, por óbvio, o futuro já é quase todo previsível – a pensarmos que o domínio atual está longe de uma solução ética e social. Portanto, é claro que não haverá amanhã sem resolver, consertar, modificar profundamente o presente – esse mesmo que se agarra de forma irrefutável ao passado.         

·       A leitura atenta revelou o emprego repetido do verbo “Pensar” e isso foi proposital, uma vez que não há Educação sem pensamento crítico, criativo, propositivo. 

* O conteúdo opinativo acima é de inteira responsabilidade do colaborador e titular desta coluna. O Portal Gente de Opinião não tem responsabilidade legal pela "OPINIÃO", que é exclusiva do autor.

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