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Vinício Carrilho

Soberania analítica


Soberania analítica - Gente de Opinião

Nesse texto procurei sintetizar as respostas que forneci à revista da PUCMG. Não alterei o sentido, nem a estrutura do texto, e adotei esse caminho de “soberania analítica” como sendo a somatória de múltiplos fatores.

 

1.    Em que medida a dependência de tecnologias estrangeiras (Big Techs) configura uma forma de "colonização digital"?

Isso que você chamou de “colonização digital”, penso que é a aparência visível da fase atual do capitalismo. É a aparência que nos relata sua hegemonia; é a aparência que ilustra a essência. A hegemonia do Capitalismo Digital está pautada pelas chamadas “novas tecnologias do século XXI”. O problema está em diminuir a distância que nos separa do centro de poder, mas sem inventar a roda – e não vejo outra forma que não passe pelo fomento, investimento maciço em instituições públicas devotadas à produção da Ciência e da tecnologia. Além disso, nesse Capitalismo Digital, hoje enfrentamos a pejotização e a uberização, tanto quanto o pensamento escravista se alimenta da exploração do trabalho análogo à escravidão. De forma trágica, no Brasil convivem passado e futuro – e quase nunca no que podemos destacar como o “melhor” de suas apresentações.

2.    A denominada “nova geopolítica da agenda digital” é dominada por corporações multinacionais e extraterritoriais, como empresas de tecnologia dos Estados Unidos e da China. Neste cenário, como fica a soberania brasileira?

A soberania é uma, algo que não se divide ou parcela. Não há uma fração de soberania e, por isso, não empregamos o superlativo: soberaníssimo. Desse modo, a soberania territorial – por exemplo, o controle nacional sobre a Amazônia –, a soberania energética (no melhor sentido da Petrobrás), a soberania popular – se conseguirmos anular os negacionistas da urna eletrônica –, estão justapostas à “soberania digital”. A própria substituição – que será gradativa – das fontes energéticas, sobretudo petróleo, passará pela utilização massiva das “terras raras”: a Guerra da Ucrânia também se explica por isso. Como sabemos, o Brasil tem a segunda maior reserva desses minerais, atrás apenas da China. E é por esse caminho que me parece haver uma possibilidade para nosso melhor posicionamento no cenário global. No entanto, resta-nos saber como se dará esse processo, pois, se praticamente exportamos somente matéria prima, sem valor agregado, sem o princípio da transformação, é preciso entender a extensão do problema, para aí fazermos uma escolha decisiva. Sem que se mude essa lógica (a desindustrialização é uma ponta disso), a subalternidade brasileira não será rompida. O que nos traz de volta ao Capitalismo Digital e às forças de domínio apontadas pelo conjunto das Big Techs, Data Centers/Big Datas, Bets. É o novo BBB do poder, assim como vemos as bancadas da Bala, Boi, Bíblia. Será que as forças locais, de atraso e retrocesso – limitadas aos costumes e ao sistema de plantation –, têm noção do desafio que se coloca para a soberania nacional? Será que o passado guardado por essas forças políticas embrutecidas não irá se chocar com o presente indicado pelos desafios da soberania brasileira e também pelas possibilidades abertas, negando-se, outra vez, uma chance para o futuro?

3.    Há mais alguma informação sobre este tema a qual o senhor gostaria de se referir?

Penso que o tema do Capitalismo Digital, e que não é uma expressão nova, necessita de mais aportes de investigação. Ainda que expresse a hegemonia atual, não é o tema de hoje. Porém, em associação com a Inteligência Artificial, no estágio em que já é praticada, nos impõe um dever de conhecimento. Afinal, a força dos algoritmos (disruptivos) é evidentemente uma ameaça (talvez a mais séria) à soberania. Mas, não é só isso, é a força desconstituinte da Inteligência Social, da sociabilidade como a conhecemos. Neste ponto de convergência entre Ciência, tecnologia e sociedade, temos a predominância das redes sociais, que chamo de antissociais, e a total precarização da vida social. Neste sentido, o que pensamos acerca da urgência de uma Educação pautada pela Emancipação se equipara aos esforços nacionais pela soberania. É óbvio que não se pode falar do Princípio da Autodeterminação dos Povos, de descolonização, de afirmação, se não vigora a liberdade. Não há como, pelo exercício da lógica, tratarmos de soberania sem Emancipação.

4.    Como posso identificá-lo nesta reportagem?

Sou professor titular da UFSCar, Doutor em Ciências Sociais e em Educação.

* O conteúdo opinativo acima é de inteira responsabilidade do colaborador e titular desta coluna. O Portal Gente de Opinião não tem responsabilidade legal pela "OPINIÃO", que é exclusiva do autor.

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