Terça-feira, 7 de abril de 2026 - 08h55

VALE TUDO
A política
rondoniense viveu, nas últimas semanas, um daqueles momentos em que a liturgia
do cargo dá lugar ao vale-tudo eleitoral. O fechamento da chamada “janela partidária”
- essa fresta legal que permite a deputados mudarem de sigla sem o risco de
perder o mandato - escancarou mais do que simples rearranjos ideológicos:
revelou o grau de pragmatismo, oportunismo e, em muitos casos, traição que
marca a formação das nominatas para a Câmara Federal.
JOGO SUJO
Nos bastidores,
dirigentes partidários foram submetidos a um teste de sobrevivência. Montar
chapas competitivas exigiu mais do que articulação política: foi preciso “jogo
de cintura” para acomodar egos inflados, “jogo de planilha” para distribuir
promessas de fundo eleitoral e “jogo sujo” para rifar antigos aliados em nome
de nomes considerados mais viáveis eleitoralmente. A coerência partidária, como
de costume, foi tratada como detalhe dispensável.
IMPONDERÁVEL
A lógica que
prevaleceu foi simples: quem tem voto - ou aparenta ter - vira prioridade.
Nesse processo, deputados trocaram de partido como quem troca de camisa, alguns
renegando discursos que os elegeram, outros abandonando bases políticas
construídas ao longo de anos. Tudo em nome de uma matemática eleitoral que, na
teoria, maximiza as chances de sobrevivência nas urnas. Mas há um detalhe que
escapa às planilhas: o eleitor. Ele é o imponderável.
MEMÓRIA CURTA
Embora todos os
movimentos tenham sido calculados com base em coeficiente eleitoral, divisão de
recursos do fundo partidário e espaços em eventuais governos, há um fator
imponderável que costuma cobrar seu preço - a memória (ainda que curta) do
eleitorado. Muitos dos atuais parlamentares podem descobrir, da forma mais
dura, que não basta estar bem posicionado em uma nominata robusta. É preciso
ter entregado resultado.
CONTA ABERTA
Em Rondônia, cresce a
percepção de que boa parte da bancada federal produziu mandatos aquém das
expectativas. A atuação discreta - para não dizer irrelevante - de muitos
deputados contrasta com a intensa movimentação de bastidores para garantir a
reeleição. A conta pode não fechar.
EM DESCOMPASSO
Há, inclusive, quem
aposte que, dos atuais representantes na Câmara Federal, apenas dois consigam
retornar. Um número que, se confirmado, não será fruto de erro de engenharia
eleitoral, mas sim de desempenho político insuficiente. Afinal, o eleitor pode
até não acompanhar os detalhes da dança partidária, mas reconhece quando o
mandato não se traduz em benefícios concretos.
LINHA TÊNUE
No fim das contas, a
janela partidária, que deveria ser um instrumento de ajuste democrático, acabou
funcionando como vitrine de um sistema em que lealdade é moeda fraca e
conveniência é regra. Resta saber se, diante desse espetáculo, o eleitor será
mero espectador - ou protagonista de uma renovação que muitos, nos bastidores,
fingem não temer, mas claramente tentam evitar.
JANELA DA LÁBIA
Os dirigentes
partidários, mestres da lábia, fizeram as contas que os pré-candidatos queriam
ouvir para se filiarem mesmo sabendo que as duas ou três vagas prometidas de
deputado federal ainda é um mera aritmética feita como miragem para ludibriar
os incautos. Com a janela fechada, exigir agora que os compromi$$os firmados
sejam cumpridos: eis a questão...
CENÁRIO INCERTO
Como esta coluna
cravou, à exaustão, desde o ano passado, o governador Marcos Rocha jamais
cogitou renunciar ao mandato para disputar o Senado (após a traição do
vice-governador). Não por falta de estímulo, mas por cálculo político, daqueles
que dispensam bravatas e priorizam o controle do jogo. As razões foram
devidamente fundamentadas por este escriba da cabeça chata, embora muitos
tenham preferido a conveniência da ilusão. Restou aos irmãos Gonçalves apostar
num cenário que nunca existiu fora das especulações de bastidores.
PECHA IMPLACÁVEL
Ao vice-governador,
Sérgio Gonçalves, coube o pior desfecho: revelou-se um político inábil, movido
por uma ambição desmesurada e, sobretudo, precoce. Ao romper de forma
desnecessária com quem lhe estendeu a mão, encurtou a própria trajetória. Em
poucos meses, caminha para o retorno ao anonimato político, com reduzidas
chances de reabilitação. Carrega agora na testa a pecha de traidor, um rótulo
que, na política, costuma ser permanente e implacável.
QUALIDADES VALIOSAS
Já o irmão, Júnior
Gonçalves, embora tenha contribuído para a derrocada do vice, demonstra possuir
mais talento para o jogo político. Tem histórico de articulação, sobretudo
quando não atua movido pelo fígado. É simpático, inteligente e perspicaz,
qualidades que, em uma campanha, são valiosas para fortalecer protagonistas.
ERROS FATAIS
O problema surge
quando Junior confunde seu papel: não é, e dificilmente será, o protagonista da
história. Se compreender que seu lugar é como coadjuvante qualificado, poderá ser
útil, inclusive ao União Brasil. Caso contrário, corre o risco de repetir o
mesmo erro que ajudou a afundar o irmão. Nos bastidores ele ajuda muito mais
numa eleição do que marmanjos que perambulam em todas as campanhas em busca de
uma sombra confortável as próprias ambições.
REGISTRO
Na política, a
palavra dita em público costuma pesar menos do que a sussurrada em privado -
ainda que devesse ser o inverso. O episódio envolvendo Confúcio
Moura ilustra bem essa inversão de valores que, vez ou outra, insiste em
se impor como regra.
VERDADE
Havia, de minha
parte, um texto pronto. Duro, detalhado, com o bisturi afiado que certas
circunstâncias exigem. Não por impulso, mas por ofício - quando o fato pede
clareza, o silêncio costuma ser cúmplice. Reafirmo, sem rodeios, o conteúdo que
o motivou: a informação publicada era verdadeira. Tanto que, em reservado, o
próprio senador reconheceu sua procedência e apresentou suas desculpas.
FIM DE PAPO
Diante disso, faço o
movimento que a serenidade recomenda: encerro a querela. O texto, que poderia
tensionar ainda mais o ambiente, fica na gaveta. Não por falta de convicção,
mas por escolha. Resta, contudo, um ponto que não se dissipa com a discrição de
um pedido privado. A palavra pública, quando utilizada para desqualificar,
também exige reparação pública. O gesto reservado ameniza, mas não apaga.
Alivia o desconforto pessoal, mas não corrige o ruído coletivo.
SUPERAÇÃO
Fica, portanto, o
registro sem estridência: a controvérsia está superada no plano pessoal, mas
ainda carece de um desfecho à altura no espaço onde começou. Afinal, na vida
pública, não basta estar certo - é preciso também parecer justo.
INTOLERÂNCIA
O episódio envolvendo
o deputado federal Rafael Fera expõe, mais uma vez, o limite tênue entre o
exercício do mandato e o respeito às instituições - entre elas, a imprensa. Não
se justifica que um agente público, investido de mandato popular, reaja com
agressividade a críticas, ainda que as considere excessivas ou injustas. O
caminho institucional é outro: o direito de resposta e o pedido de retratação
existem exatamente para isso, e funcionam. Ao partir para o confronto pessoal,
o parlamentar fragiliza sua própria posição e desloca o debate do campo
político para o terreno da intolerância.
ARMAÇÃO
Por outro lado, é
inegável que sua situação jurídica do deputado desperta interesse público e,
portanto, deve ser objeto de escrutínio jornalístico. Ao se colocar novamente
como candidato, Fera se submete naturalmente ao crivo da opinião pública. Sua
condição atual de inelegibilidade, embora real, não é definitiva. Há elementos
jurídicos que sustentam a possibilidade de reversão, especialmente diante da
reavaliação feita pela própria Câmara Municipal que anteriormente o cassou,
reconhecendo ilegalidades no processo. Na época esta coluna apontou que o
processo de cassação era uma armação dos adversários. E foi.
HOSTILIDADE
Esse histórico
reforça a tese de que houve, no passado, uso político de instrumentos
institucionais para conter um adversário incômodo. Ainda assim, a eventual
injustiça sofrida não autoriza o deputado a atacar jornalistas que apenas
cumprem seu papel. A crítica à imprensa não pode se confundir com intimidação.
Se há erro, que se corrija pelos meios legais. Se há perseguição, que se prove
nos autos. O que não cabe é transformar divergência em hostilidade.
INJUSTIÇA
No fim, Fera pode
reverter sua inelegibilidade - e há sinais de que isso é plausível depois que o
TJ arquivou uma ação sobre os mesmos fatos por perda de objeto-, mas sua
credibilidade política dependerá também da forma como lida com o contraditório.
Em democracia, força não é sinônimo de razão. Embora a Justiça Eleitoral tenha
seus próprios ritos, a situação jurídica de Rafael Fera é na ótica deste cabeça
chata de uma injustiça que saltam aos olhos. A cassação foi armação.
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