Terça-feira, 10 de fevereiro de 2026 - 07h55

Entre linhas
amareladas pelo tempo, uma carta de 1965 preserva a integridade silenciosa de
um casal abenegado que serviu sem ruídos.
Washington D.C – Entre documentos
pessoais preservados por décadas,
uma carta datada de 11 de abril de 1965, encontrada recentemente entre os
arquivos de família, oferece um raro retrato da vida cotidiana, das relações
humanas e dos valores que marcavam o Brasil da época — especialmente na região amazônica.
Escrita
em Manaus pelo pastor Itamar Sabino de Paiva, então ligado à Missão Central
Amazonas da Igreja Adventista do Sétimo
Dia, a correspondência foi enviada ao Capitão Jairo Saraiva, residente em Porto
Velho, à época Território Federal de Rondônia, onde exercia o
ministério como primeiro
pastor da Igreja Adventista do Sétimo
Dia na cidade.
Mais
do que uma comunicação formal, o texto revela cuidado, responsabilidade e afeto
dedicados a uma criança temporariamente confiada ao casal pastoral, em um
contexto de grandes distâncias geográficas e escassos meios de comunicação.
Ao
mencionar a irmã Ruth, esposa do pastor Itamar, a memória ganha contornos ainda mais
humanos e sensoriais. Vem à boca o gosto da granola que ela preparava ao
amanhecer, feita com aveia, mel e castanha-do-pará, servida com simplicidade e
carinho — pequenos
gestos que, ao sobreviverem na lembrança, revelam a dimensão silenciosa do
cuidado cotidiano.
Preservada
por anos pelo destinatário, a correspondência ultrapassa hoje o âmbito privado.
Ela se impõe como documento histórico de valor social, ao
revelar práticas de confiança, prestação
de contas, zelo com a infância e uma religiosidade vivida de forma simples, ética e cotidiana — traços cada vez mais raros no
mundo contemporâneo.
Ainda
que, no presente, a reflexão do autor se apoie na razão e não mais na fé, o registro desta carta nasce do
reconhecimento sereno de gestos humanos autênticos. Trata-se de um testemunho
de gratidão que não se prende a rótulos
ou crenças, mas ao mérito
de pessoas que viveram com coerência, simplicidade e fidelidade aos valores que
professavam.

LEITURA
MEMORIALISTICA DA CARTA (Manaus 11 de abril de 1965)
Esta
carta, enviada pela Missão Central Amazonas da Igreja Adventista do Sétimo Dia, é mais do que uma comunicação
administrativa ou religiosa. Ela é um
registro íntimo de uma travessia — geográfica,
familiar e simbólica — no coração do Brasil amazônico dos
anos 1960.
1. O
tempo e o lugar
Em
1965, Manaus ainda vivia entre o rescaldo do ciclo da borracha e o isolamento
logístico da Amazônia profunda. Porto Velho, então Território Federal de Rondônia, era ainda mais
remoto. Uma viagem aérea,
mencionada com encanto e curiosidade, não era banal: era um acontecimento
extraordinário, quase épico,
especialmente para uma criança.
A
carta revela isso com delicadeza:
“Gostaria de saber qual a sua impressão de uma viagem aérea, com a qual tanto sonhara.”
Aqui não há formalidade burocrática — há
encanto genuíno.
2.
Samuelzinho: a criança como centro moral
Samuel não é tratado como “menor”, “dependente” ou “acompanhante”. Ele é o centro afetivo e ético da narrativa. O diminutivo “Samuelzinho” não
infantiliza: humaniza.
Os
autores da carta sentem a necessidade quase pastoral de justificar cada
cuidado:
• a
disciplina escolar,
• o descanso após o
almoço,
• a mediação de conflitos (especialmente
com Ruth).
“Pois isto fizemos para que a criança fique bem mais calma.”
Essa
frase revela algo raro: responsabilidade afetiva consciente. Não era apenas
hospedagem — era guarda moral temporária.
3.
Confiança entre adultos
Há uma
palavra que atravessa silenciosamente todo o texto: confiança.
“Só temos a agradecer a confiança de havê-lo deixado conosco.”
Em um
Brasil sem celulares, sem rastreamento, sem comunicação instantânea, confiar um filho a
terceiros era um ato de fé real, não retórico.
A carta devolve essa confiança com transparência, inclusive financeira.
4. O
valor da passagem: Cr$ 14.500
A menção
explícita ao valor da passagem pela Cruzeiro do Sul não é detalhe menor. Pelo contrário:
• demonstra prestação de contas,
• evita
qualquer sombra de dúvida,
• revela
uma ética quase artesanal de
honra.
Não há cobrança, apenas
esclarecimento:
“O demais já está tudo acertado.”
Isso
diz muito sobre o tempo — e
talvez mais ainda sobre as pessoas.
5.
Religião sem fanatismo
Embora
profundamente cristã, a carta não é dogmática.
A fé aparece como linguagem
de cuidado, não de imposição.
“Desejamos que os vossos filhos sejam encaminhados para os céus através da igreja e do lar.”
Igreja
e lar aparecem no mesmo nível. Não
há hierarquia. Há continuidade.
6. A
assinatura
A
assinatura de Itamar Sabino de Paiva encerra a carta com uma fórmula hoje quase desaparecida:
“Com estima elevada e grande consideração, detenho-me,”
É o
fim de um gesto, não apenas de um texto. Um modo de dizer: cumpri meu dever
humano.
Síntese final
Esta
carta não fala apenas de Samuel.
Ela
fala de:
• um
Brasil onde distâncias exigiam caráter,
• uma época em que educar era também cuidar,
• relações
baseadas em honra, palavra e fé vivida, não
performada.
É um
documento simples — e
por isso mesmo poderoso. Um fragmento de memória que sobrevive porque foi
escrito com verdade.
_______________
Este
singelo registro de gratidão, nascido da memória, repousa na compreensão de
que os valores civilizatórios
de fraternidade e respeito às diferenças se elevam acima de quaisquer
sectarismos, pois é na
humanidade partilhada, vivida sem imposições e em silêncio íntimo, que a consciência
encontra sua ascensão — entre
aqueles que escolhem guiarem-se pela fé ou
pela razão.
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