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Saúde

Na fronteira invisível, uma rede de cuidado une Brasil e Bolívia no atendimento a indígenas com hepatites virais


Foto: Ésio Mendes - Secom - Gente de Opinião
Foto: Ésio Mendes - Secom

Às margens do Rio Mamoré, em Rondônia, onde o Brasil encontra a Bolívia e divide duas cidades irmãs — Guajará-Mirim e Guayaramerín —, a fronteira se torna invisível diante de um trabalho que tem como foco enfrentar as hepatites virais.

De um lado, a população boliviana busca estratégias para vencer a doença. Do outro, dezenas de indígenas convivem com formas crônicas da infecção.

Separados por uma linha geográfica no mapa — e, na prática, por um rio e longas estradas —, esses grupos compartilham os mesmos desafios de acesso à saúde. Ainda assim, um trabalho conjunto mostra que iniciativas podem promover mudanças reais.

Na semana de 24 a 29 de março de 2026, uma mobilização reuniu profissionais de saúde, pesquisadores e instituições públicas e privadas para ampliar o diagnóstico, o tratamento e o acompanhamento de pacientes com hepatites virais.

Mais do que uma atividade pontual, o que se evidenciou foi uma rede de cuidado que funciona na prática, capaz de superar distâncias geográficas e institucionais. Profissionais e pacientes ultrapassaram a linha do mapa, transformando uma ação localizada em uma experiência que integra pessoas, culturas e desafios compartilhados.

Indígenas e moradores da fronteira convivem, há décadas, com um problema silencioso: as hepatites virais. A região amazônica de fronteira apresenta um cenário epidemiológico particular. O fluxo constante entre Brasil e Bolívia, somado às fragilidades dos serviços de saúde, aumenta o risco de transmissão de doenças infecciosas.

CENÁRIO

Se a fronteira impõe desafios, ela também cria possibilidades de cooperação. Profissionais de saúde bolivianos participam das ações integradas e mantêm diálogo constante com as equipes brasileiras, fortalecendo o atendimento na região.

Médico Wilson Flores (camisa Marron) e o médio Juan Villalobos (camisa branca) - Gente de Opinião
Médico Wilson Flores (camisa Marron) e o médio Juan Villalobos (camisa branca)

O médico especialista Wilson Flores, do Centro Regional de Vigilância, Informação e Referência em DST/HIV/AIDS e Hepatites Virais (CRVIR), da Bolívia, destacou a importância dessa parceria. “O trabalho conjunto entre os países é essencial. A troca de experiências e a aproximação com os serviços brasileiros são fundamentais para qualificar o atendimento aos pacientes dos dois lados da fronteira.”

Entre os povos indígenas, esse cenário é ainda mais sensível. O médico pesquisador Juan Villalobos, da Fundação Oswaldo Cruz.(Fiocruz) explica que o cenário na região sempre foi diferenciado, especialmente entre populações indígenas, que tiveram alta incidência de hepatites B e D ao longo dos anos. “Com a ampliação da vacinação e das estratégias de prevenção, esse quadro vem mudando. Mas ações como essa são fundamentais para entender a evolução da doença e qualificar o cuidado.”

DSEI/CASAI

Coordenador do DSEI, Isac Wajuru. - Gente de Opinião
Coordenador do DSEI, Isac Wajuru.

Responsável pela mobilização dos indígenas durante a ação em Guajará-Mirim, o coordenador do Distrito Sanitário Especial Indígena (DSEI), Isac Wajuru, destaca que a integração entre os serviços foi fundamental para garantir o atendimento. “Essa integração é o que garante que o paciente não fique sem assistência em nenhuma etapa. A gente precisa trabalhar em conjunto para assegurar que o cuidado continue, desde a aldeia até o tratamento”, afirma.

O trabalho coordenado pelo DSEI começou ainda nas aldeias, com a identificação dos pacientes e a organização do deslocamento até a cidade, em articulação com o Serviço de Atendimento Especializado (SAE), responsável pelo acompanhamento clínico.

Durante a mobilização, indígenas de diferentes aldeias chegaram à Casa de Saúde Indígena (Casai) de Guajará-Mirim - Gente de Opinião
Durante a mobilização, indígenas de diferentes aldeias chegaram à Casa de Saúde Indígena (Casai) de Guajará-Mirim

Durante a mobilização, indígenas de diferentes aldeias chegaram à Casa de Saúde Indígena (Casai) após longos deslocamentos, muitas vezes combinando dias de viagem por rios e estradas. A unidade funciona como ponto de apoio essencial, oferecendo hospedagem, alimentação e suporte durante exames e consultas. Para muitos, esse é o único caminho possível até o atendimento especializado.

A dimensão desse trabalho é ampla: o DSEI Porto Velho atende cerca de 11,7 mil indígenas, distribuídos em aproximadamente 200 aldeias, em municípios como Porto Velho, Guajará-Mirim, Ji-Paraná, Alta Floresta d'Oeste e Humaitá. Em muitos casos, o deslocamento até o atendimento pode levar dias.

PRESERVAR A CULTURA

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Durante a semana de mobilização, marcada por atendimentos intensivos, coleta de exames e acompanhamento clínico, a noite cultural surgiu como um ponto de equilíbrio entre técnica e identidade. Em meio as consultas e procedimentos, o encontro reforçou que o cuidado em saúde, naquele território, não se limita ao tratamento das hepatites virais, mas se constrói também no fortalecimento dos vínculos, da cultura e do pertencimento dos povos indígenas atendidos.

Aos 29 anos, Isac Wajuru ascendeu à liderança indígena sob o aval de sua mãe, cacique da aldeia, e não perde oportunidade para destacar a cultura e garantir que a saúde indígena esteja também ligada à preservação das tradições. “Garantir que os mais velhos permaneçam saudáveis é assegurar que o conhecimento continue sendo transmitido às novas gerações”, pontua.


DIAGNOSTICO

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Parte essencial desse trabalho acontece longe dos olhos da maioria. O Laboratório de Fronteira (Lafron) realizou exames iniciais e coleta de material biológico, enquanto análises mais complexas foram encaminhadas ao laboratório central, na capital.

Durante a semana, o biomédico Rafael Ripke Rabelo, do Lafron, atuou diretamente na Casai para otimizar a coleta e agilizar os resultados dos exames. Isso possibilitou que, no dia 28, dezenas de indígenas em condição crônica fossem atendidas no Serviço de Atendimento Especializado (SAE) de Guajará-Mirim.

A coordenadora estadual de hepatites virais da Agência Estadual de Vigilância em Saúde (Agevisa), Francilene Alves de Miranda, destacou a relevância do trabalho integrado para o fortalecimento dos pontos da rede assistencial na fronteira.

“Quando organizamos melhor os fluxos e fortalecemos a vigilância na fronteira, conseguimos identificar fragilidades no acompanhamento atuar de forma mais eficaz e pontual, diminuindo falhas na oferta dos serviços, exames e abandono de tratamento”, explica. 

Segundo ela, estratégias de ampliação da testagem rápida, oferta da vacina da hepatite B, acesso ao diagnóstico precoce e tratamento oportuno têm contribuído para o controle de novos casos.

DESAFIOS E PARCERIA

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Apesar dos avanços, a região ainda enfrenta desafios importantes: grandes distâncias geográficas, dificuldade de continuidade do tratamento, necessidade de maior integração entre os sistemas de saúde dos dois países e a vulnerabilidade social das populações atendidas.

As ações realizadas em Guajará-Mirim mostram que o enfrentamento das hepatites virais em regiões de fronteira depende menos de iniciativas isoladas e mais de articulação.

A mobilização reuniu instituições como DSEI, Casai, SAE, Secretaria Municipal de Saúde de Guajará Mirim, Fundação Oswaldo Cruz, IFRO, Lafron, Lacen e o Exército Brasileiro, fortalecendo a atuação integrada na assistência, vigilância e prevenção.

Em um território marcado por divisões geográficas, o que se constrói ali é justamente o contrário: uma rede que conecta, integra e garante - ainda que com desafios - o acesso à saúde.

A mobilização realizada na região de fronteira não apenas ampliou o acesso ao diagnóstico e tratamento das hepatites virais, como também evidenciou a importância de ações integradas voltadas à proteção da saúde em territórios ambientalmente sensíveis e socialmente vulneráveis. Ao atender populações indígenas e comunidades tradicionais da Amazônia, a iniciativa reforça a relação direta entre saúde, território e preservação, destacando que a garantia de direitos dessas populações é parte essencial das estratégias de proteção ambiental e de fortalecimento da vida na floresta.

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