Porto Velho (RO) sábado, 6 de junho de 2020
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Gente de Opinião

Hugo Evangelista

Uma Questão de Interpretação!


 

Hugo Evangelista da Silva*
 

Assisti, faz alguns dias, uma cena tão inusitada quanto hilária!

Acabava de sair de um café com tapioca – o que faço pela manhã numa das bancas do Mercadinho do Km1 com alguma regularidade – e na volta deparei-me com um pequeno entrevero que acontecia entre uma senhora minha conhecida – moradora do bairro – e o “cambista” de uma das tantas bancas de “zoo-lotérica” espalhadas pela área periférica ao próprio público.

Parei e fiquei a assistir a discussão.

O desentendimento devia-se a resistência do “anotador” em fazer o registro do jogo da “apostadora” que por total desconhecimento das regras e dos bichos da inominada “loteria” buscava, a qualquer custo, fazer uma “fezinha” na formiga. Dizia o “cambista”: “Na formiga não pode minha senhora”! Ela indagava: “Por que não”? Ele: “Porque não pode!”. E nessa pendenga estavam os dois teimando já se passavam alguns momentos!

Lá pelas tantas, ante a insistência de minha vizinha, “o cambista” resolveu explicar-lhe o funcionamento de sua “loteria”: “Nesse jogo existe somente vinte e cinco bichos, e dentre eles não está a sua formiga. E explicou mais: para fazer a aposta, a senhora precisa escolher dentre os bichos que existem no jogo!” A idosa, um tanto contrariada, perguntou: “Nesse jogo tem zebra?” “Não”, disse o rapaz. Acrescentou: “A zebra também não faz parte do jogo”! Ela, irritada, quis saber: “Como é que eu ouço dizer a quase todo final de semana que deu zebra no jogo?” Ele impaciente, respondeu: “Minha senhora zebra só existe no futebol”! Mas – insistiu a anciã – não foi por causa do jogo do bicho que a zebra foi parar no futebol? “Sim – disse o cambista – mas essa já é outra história e eu não tenho tempo para lhe explicar. Tenho gente para atender. Procure outra banca”!

O rapaz da “banca lotérica” voltou-se, então, a atender outros apostadores. A velhinha, firme em sua determinação, não arredou o pé! Ficou aguardando o “cambista” concluir as anotações de seus “poules”. Terminadas as anotações voltou ela – mais calma – a interpelar o rapaz. Disse-lhe: “Sabes, moço, eu quero jogar na formiga porque ontem eu tive um sonho com uma e dizem que quando a gente sonha com um animal e aposta no jogo do bicho a gente sempre ganha um dinheirinho”. O rapaz do jogo também restabelecido dos degastes consequentes do entrevero, disse-lhe: “Ah! Agora entendi. A senhora sonhou com a formiga e quer, por isso, jogar na formiga!” Observou-lhe, então: “Minha vozinha quando se sonha com um bicho é preciso fazer uma correta interpretação do sonho”. E citou um exemplo: “Dia desses veio aqui um apostador que tinha sonhado na noite anterior com um amigo “gay” que ele não vê já faz algum tempo. Jogou no veado e, no dia seguinte, quando saiu o resultado, deu leão”. Concluiu: “Ele não fizera uma correta intepretação do sonho”! “A senhora não se importaria de contar-me o seu sonho?”, pediu. Ela respondeu: “Foi simples. Sonhei que no meu quintal saía de um buraco uma enorme formiga”!

O “cambista”, por piedade da idosa ou talvez para livrar-se dela, fez a seguinte interpretação: “Senhora, como não existe formiga no jogo do bicho, a senha para o seu jogo pode não ser o animal, mas o buraco. Como é sabido, tem bicho que adora um buraco: o tatu, a paca e a cobra são exemplos do que lhe digo”. E ilustrou sua afirmação: “Dizem até que a paca e a cobra convivem em perfeita harmonia no mesmo buraco”. Ela, então, perguntou: “A paca e o tatu também convivem”? Querendo encerrar a conversa, o rapaz disse: “Acho que não”! E mais: “Pelo que sei, eles não são tão amigos”. A senhora fez uma pequena pausa e, depois, indagou: “Será essa a razão da pergunta do índio naquele comercial da televisão”? Sem resposta o rapaz questionou: Que pergunta? Ela: Aquela que ele pergunta àquele gordinho que só fala dum posto de gasolina: “Em vereda de paca tatu caminha dentro”? O rapaz deu um leve sorriso e disse: “Sei lá, deve ser”! Ela indagou em seguida: Posso jogar no tatu? Ele: Não! Ela: E na paca? Ele: Também não! Não existem tatu nem paca no nosso jogo! Ela, por fim: E na cobra, posso? Ele confirmou: Sim, na cobra pode!

Perguntando ela como poderia fazer o seu jogo, ele informou-lhe: “A senhora pode jogar no grupo – que é 9; nas dezenas que são: 33, 34, 35 e 36; na centena, que se forma acrescentando um número à frente das dezenas; e, na milhar, formada quando se acrescenta dois números à frente das dezenas” E qual paga o maior prêmio? Quis saber a senhora. “A milhar senhora” – respondeu-lhe o moço.

Enfiou a mão no bolso da saia, catou seus poucos caraminguás e disse: “Joga tudo na milhar”. Aí, quis saber o moço: “Qual a milhar?” Ela: “Pode ser a 3334?” Ele: “Pode”. Ela: “E a 3536?” Ele: “Também pode!”. A apostadora pensou, pensou, pensou ... e, disse afinal: “Põe na milhar 3435”. Ele fez a anotação e entregou-lhe o “poule”. Já à saída a velhinha ainda em dúvidas quis saber do “cambista”: “Em que bicho mesmo eu estou apostando?” O moço já pleno de satisfação, respondeu: “Na formiga, minha vozinha”! Ah, sim – disse ela – era nela mesma que eu desejava jogar! E foi-se.

Soube depois que no dia seguinte, quando a idosa chegou à banca para conferir seu jogo, era aguardada pelo “cambista” e mais um séquito de pessoas que assistiram a teimosia da anciã no dia anterior. Ela perguntou ao “banqueiro”: Qual foi o bicho que deu? O rapaz abriu a gaveta, puxou um pacote recheado de cédulas de reais e disse: “Deu Formiga! E aqui está o seu prêmio”. Ela, ao receber seu prêmio, observou ao “cambista”: “Viu como eu estava certa?” Depois, abriu o pacote, conferiu a importância, separou alguns caraminguás e, para delírio da pequena plateia, quis saber: “Meu filho, quais são mesmo os números do Jabuti?”
 

* Advogado, escritor e memorialista, conta histórias que viu ou ouviu sobre nosso estado, nossa cidade e do bairro em que nasceu e reside: o Santa Bárbara. e-mail: [email protected]

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