Quarta-feira, 19 de novembro de 2025 - 08h10

As vezes me pego pensando no que há de pior neste mundo
corporativo: não é o estresse, nem as metas — é estar rodeado de pessoas e
ainda assim sentir-se só. Uma solidão que vai se enraizando no peito,
silenciosa e sorrateira. A depressão chega depois — ou, muitas vezes, caminha
junto — com outro tipo de peso: o de não mais ter sentido, e não ter forças
para reagir.
Na minha ida ao evento SXSW deste ano, um tema me
atravessou profundamente: a epidemia da solidão. O evento inteiro, conhecido
por falar de tecnologia, inovação e futuro, falava também sobre o que nos falta
— presença real. Vivemos conectados digitalmente e, paradoxalmente, mais
desconectados emocionalmente do que nunca.
Essa percepção ecoou forte em mim porque, nos últimos anos,
temos sido procuradas por empresas que querem promover encontros cujo foco
principal é “conexão”. Não é sobre performance, metas ou planos estratégicos —
é sobre gente querendo se reconectar com gente. E a pergunta que não sai da
minha cabeça é: o que está acontecendo conosco?
Solidão
crônica e depressão — irmãs incertas
Pesquisas mostram que existe uma relação próxima entre
solidão e sintomas depressivos: a solidão intensifica a depressão, e a
depressão leva ao isolamento — um ciclo que se retroalimenta. Mas não são a
mesma coisa. A solidão crônica é a sensação persistente de falta de conexão, de
que ninguém “me vê de fato”.A depressão, por outro lado, é uma condição clínica
— envolve alterações de humor, energia, prazer e até do funcionamento do corpo.
Ambas podem coexistir, mas exigem olhares e caminhos distintos no seu
tratamento.
Em termos práticos, quem vive a solidão no trabalho pode
estar presente fisicamente, mas emocionalmente distante — um “fantasma entre
equipes”. Já quem vive a depressão pode estar tão preso dentro de si que nada
mais importa — metas, relacionamentos, reconhecimento. Tudo se torna cinza.
No mundo corporativo, onde o pulso da conexão deveria ser
forte
Quando a solidão se instala nas equipes, ela silencia o
diálogo genuíno, inibe a colaboração e faz o espírito de time murchar.
Pesquisas indicam que profissionais solitários apresentam
queda de performance, maior rotatividade e menor engajamento.
A depressão, por sua vez, é uma ladra silenciosa de energia
e propósito — esvazia o sentido do trabalho e esgota a vitalidade.
Hoje sabemos que depressão e ansiedade já custam à economia
global mais de US$ 1 trilhão por ano em produtividade perdida. Mas há um custo
que não aparece nas planilhas: o do vazio humano que se instala quando ninguém
mais se sente visto ou pertencente.
As melhores equipes que conheço não são as que têm os
melhores talentos, mas as que têm vínculos verdadeiros. Onde há
vulnerabilidade, há confiança. Onde há confiança, nasce cooperação. E onde há
cooperação, o trabalho ganha alma.
Um líder atento sabe que perguntar com presença é mais
transformador do que motivar com discurso. Sabe que criar espaço para
pertencimento é uma estratégia de longo prazo — porque sem pertencimento não há
engajamento sustentável.
A solidão crônica mina o tecido das relações. A depressão
rouba a energia vital que move o trabalho. Uma corrói por fora, a outra por
dentro — e juntas, silenciam o melhor que podemos ser.
É hora de devolver humanidade às relações de trabalho. De
falar, de escutar, de criar espaços onde as pessoas possam pertencer de
verdade. Porque no fim das contas, o que sustenta uma cultura não são processos
— são pessoas que se enxergam.
“Transformar emoções em resultados” só é possível quando
lembramos que sentir é parte do trabalho — e que cuidar das conexões humanas é
cuidar da performance.
*Por Virginia Planet, sócia da House of Feelings, primeira
escola de sentimentos do mundo. Mais informações em site.
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