Terça-feira, 18 de novembro de 2025 - 08h38

A tragédia recente envolvendo bebidas adulteradas com metanol, que
causou dezenas de mortes no país, levantou um alerta urgente sobre o risco de
produtos de origem duvidosa. Se até bebidas destinadas ao consumo humano são
falsificadas, o que dizer de medicamentos veterinários, muitas vezes comprados
sem prescrição e fora dos canais oficiais?
O problema da falsificação na saúde animal é antigo, mas vem ganhando
força com a popularização das vendas online. Produtos contrabandeados, roubados
ou simplesmente falsos circulam em marketplaces e redes sociais, atraindo tutores
e produtores rurais com preços muito abaixo da média. Por trás dessa aparente
vantagem, existe um enorme risco à saúde dos animais, humana e à qualidade dos
alimentos provenientes destes animais.
Um medicamento veterinário
falsificado pode conter substâncias desconhecidas, em doses erradas ou até não
conter princípio ativo algum. Em cães e gatos, isso pode agravar doenças,
provocar reações alérgicas e causar a morte. No caso de animais de produção, o impacto
se estende à mesa do consumidor, com o risco de resíduos químicos em carnes,
leite e ovos. É um problema que afeta a credibilidade da indústria, ameaça a
saúde pública e mina a confiança em profissionais e marcas sérias.
O Sindicato Nacional da Indústria
de Produtos para Saúde Animal (Sindan) tem acompanhado de perto esse tema. A
entidade alerta que o comércio digital abriu espaço para vendedores não
verificados, que utilizam embalagens visualmente idênticas às originais e
exploram a falta de fiscalização. Atraídos por ofertas tentadoras, muitos
consumidores acabam enganados e expõem seus animais a produtos sem controle ou
registro no Ministério da Agricultura e Pecuária (Mapa).
Esses produtos podem conter
ingredientes tóxicos, não autorizados pelo Ministério da Agricultura e Pecuária
(MAPA) para uso em animais, com graves impactos à saúde animal e humana. A
comparação com o caso do metanol não é exagero. Em ambos os contextos, a
adulteração de substâncias destinadas ao consumo coloca vidas em risco e expõe
falhas no controle da procedência.
Uma pesquisa do Radar Vet,
realizada pelo Sindan, com médicos-veterinários de todo o Brasil, revelou que
64% dos profissionais que atuam no setor veterinário, não sabem
identificar produtos falsificados. Os prejuízos podem ser graves e, em muitos
casos, irreversíveis. Por isso, é essencial que os veterinários redobrem a
atenção aos detalhes e orientem os tutores sobre a importância de adquirir
medicamentos apenas de fontes confiáveis e devidamente registradas no MAPA.
Para enfrentar esse desafio,
entidades como o Sindan tem intensificado suas ações de conscientização e
combate à pirataria. Uma das principais iniciativas é a campanha “Olhos
Abertos”, criada em parceria com o Conselho Federal de Medicina
Veterinária (CFMV). O objetivo é estimular tutores e produtores a
verificarem sempre a origem dos produtos, exigirem nota fiscal e priorizarem
canais oficiais. A campanha também apresenta o personagem João Vaca Brava,
que representa o produtor atento e comprometido com a compra responsável.
O MAPA ainda orienta para o uso
do portal Fala.br
para registro de denúncias de irregularidades em produtos veterinários,
contendo informações sobre o produto e sua origem, como um meio de orientar as
ações de fiscalização e repressão ao crime.
O combate à pirataria, no
entanto, depende de uma atuação conjunta entre governo, indústria, veterinários
e consumidores. Cada um tem um papel importante na prevenção desse tipo de
crime. Comprar de fontes seguras, desconfiar de preços muito baixos e valorizar
o trabalho dos profissionais são atitudes simples, mas que fazem diferença.
O caso do metanol deixou uma
lição clara: a origem de um produto pode ser a linha que separa segurança e
tragédia. Na saúde animal, cuidar também significa escolher com
responsabilidade. A prevenção começa muito antes do tratamento.
Gabriela Mura é
diretora de mercado e assuntos regulatórios do Sindan.
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