Porto Velho (RO) quarta-feira, 11 de março de 2026
opsfasdfas
×
Gente de Opinião

Artigo

IA perpetua preconceitos e ameaça o futuro do trabalho


João Roncati - Gente de Opinião
João Roncati

Sob a promessa de eficiência e neutralidade, a Inteligência Artificial (IA) avança sobre decisões importantes, desde a aprovação de um empréstimo até a chance de conseguir um emprego. Empresas brasileiras, em busca de otimização, abraçam essa tecnologia: segundo o Gartner, mais de 60% das grandes corporações já a utilizam em seus processos de recrutamento e gestão de talentos. No entanto, por trás da fachada de imparcialidade, esconde-se um risco potencial: o de um preconceito invisível, codificado e automatizado.

O viés em sistemas de IA não nasce de uma má intenção, é um reflexo direto das informações que os alimentam. Algoritmos aprendem a partir de dados históricos e, se eles estão impregnados pelos preconceitos estruturais da nossa sociedade, a IA não apenas os reproduzirá, mas os ampliará em uma escala industrial. É um espelho que não só reflete, mas distorce e amplifica nossas piores falhas.

Esses preconceitos se manifestam de formas sutis e devastadoras. Um estudo da Universidade de São Paulo (USP) alerta que algoritmos tendem a favorecer candidatos com nomes associados a grupos historicamente privilegiados. O caso da Amazon, nos Estados Unidos, que precisou descontinuar seu sistema de recrutamento ao descobrir que ele penalizava currículos com a palavra "feminino", é um exemplo emblemático. O software, treinado com dados de uma década de contratações majoritariamente masculinas, aprendeu a ser machista.

No Brasil, a realidade não é diferente. Uma pesquisa da FGV revelou que 57% das empresas brasileiras admitem sofrer com o viés de dados, e 61% de seus executivos temem danos à reputação. São sistemas que excluem pessoas por sotaques, faculdade ou até mesmo pelo bairro onde moram. Critérios ocultos que, como aponta a pesquisa da USP, reduzem a diversidade e desumanizam os processos seletivos.

Como mitigar os riscos

As consequências desse viés são as piores possíveis. Para o indivíduo, é a negação de oportunidades de emprego, crédito e crescimento profissional com base em marcadores de identidade.

Já para as empresas, além do risco iminente de processos e multas, há a perda de talentos. A marca que se vende como moderna e inclusiva pode ser desmascarada como uma organização que utiliza "robôs preconceituosos", um dano de imagem quase irreparável.

O Ministério Público do Trabalho (MPT), em um denso relatório de 2022, já destacava a discriminação algorítmica como um dos principais riscos da IA nas relações de trabalho, ao lado da violação de direitos fundamentais. E a questão não é se a discriminação acontece, mas como podemos combatê-la. Mitigar esses riscos exige um esforço consciente e multifacetado, como:

●Auditoria e transparência: Realizar auditorias constantes nos algoritmos para identificar e corrigir vieses. As empresas devem ser capazes de explicar por que uma decisão foi tomada.

●Diversidade nos dados e nas equipes: Garantir que os dados de treinamento sejam representativos da diversidade da população. Equipes de desenvolvimento plurais são capazes de identificar preconceitos inconscientes. 

●Supervisão humana: Manter um ser humano no ciclo de decisões críticas, especialmente naquelas que podem ter um impacto significativo na vida das pessoas. A tecnologia deve ser uma ferramenta de apoio, não o juiz final.

A Inteligência Artificial é uma ferramenta muito útil, mas não resolve todos os problemas de uma vez só. Se não formos proativos na construção de uma IA ética e justa, corremos o risco de criar um futuro onde a discriminação não é apenas um ato humano, mas um sistema automatizado, impessoal e implacável. E essa é uma falha que não poderemos simplesmente deletar.

*por João Roncati, CEO da People+Strategy - consultoria brasileira reconhecida e respeitada por seu trabalho estratégico com a alta liderança de grandes companhias. Mais informações no site.

Gente de OpiniãoQuarta-feira, 11 de março de 2026 | Porto Velho (RO)

VOCÊ PODE GOSTAR

O investimento invisível que protege o lucro e as pessoas

O investimento invisível que protege o lucro e as pessoas

No universo corporativo, a menção a uma Norma Regulamentadora costuma despertar, de imediato, uma associação com burocracia, fiscalização e, princip

Pagamentos simples para vendas ocasionais e informais

Pagamentos simples para vendas ocasionais e informais

Nem todo mundo vende todos os dias ou mantém um negócio com rotina fixa. Muitas pessoas realizam vendas ocasionais, atendimentos pontuais ou cobranç

Cassinos online reagem à possível Cide-bets e citam risco de avanço do mercado ilegal

Cassinos online reagem à possível Cide-bets e citam risco de avanço do mercado ilegal

Contribuição de 15% sobre depósitos foi retirada do projeto antifacção, mas pode ser reapresentada em novo texto no CongressoO setor de apostas espo

Os arquétipos femininos como espelhos da alma humana

Os arquétipos femininos como espelhos da alma humana

Por que a mulher, mesmo desempenhando bem os papéis que a vida lhe confiou, por vezes não se sente plena? Onde reside a verdadeira realização da nat

Gente de Opinião Quarta-feira, 11 de março de 2026 | Porto Velho (RO)