Terça-feira, 29 de julho de 2025 - 14h08

Vivemos uma era marcada por duas forças simultâneas e contraditórias: o
avanço da inteligência artificial generativa e uma epidemia silenciosa de
solidão. Esse paradoxo tem gerado um fenômeno global: pessoas estão usando a IA
não só como ferramenta de produtividade, mas como companhia emocional.
Fiquei especialmente impactada com um texto potente da autora Monica
Magalhães — que analisa o gráfico mais compartilhado de 2025 sobre os usos da
IA — e me peguei refletindo sobre como estamos, cada vez mais, terceirizando
até os nossos vínculos afetivos. A pesquisa citada por Monica mostra que, em
2025, “terapia e companhia” se tornou o principal uso da IA ultrapassando áreas
tradicionalmente dominadas como geração de ideias ou produção de conteúdo.
Essa virada me provocou. Me vi refletindo, com certo desconforto: será
que estamos terceirizando até nossos vínculos afetivos? Não é difícil entender
o porquê. A IA está disponível 24 horas por dia, não julga, é paciente e muitas
vezes gratuita. Diante disso, milhões de pessoas encontram nessas interações um
alívio imediato para sentimentos como frustração, angústia e solidão.
Plataformas como Replika, Character.AI e até apps chineses como Maoxiang se
tornaram fenômenos de massa ao oferecer companheiros virtuais que “se
importam”, escutam e, mais recentemente, até fazem videochamadas com aparência
humana.
Mas o que está em jogo aqui vai além da inovação tecnológica — estamos
diante de uma transformação cultural. E na nossa consultoria, temos sentido
isso na prática: empresas nos procuram porque suas equipes estão emocionalmente
frágeis, com dificuldade de lidar com o contraditório e de manter vínculos
autênticos. Nossos programas de team building passaram a lidar menos com
performance e mais com reconexão — com os outros e com si mesmo.
Recentemente, vivi algo que me marcou. Após uma palestra sobre
maturidade emocional, uma participante se aproximou e disse: “Você falou coisas
que eu só tinha coragem de contar para o meu assistente IA”. Aquilo me
atravessou. Era um elogio, mas também um alerta.
E talvez esse seja o ponto central: relações humanas envolvem
frustração. Quando interagimos com outra pessoa real, lidamos com a diferença,
com a espera, com o inesperado. Já a IA oferece o oposto: fricção zero. É esse
conforto previsível que está, pouco a pouco, moldando nossas expectativas
emocionais.
Como sociedade, precisamos fazer uma escolha consciente: se não
cuidarmos, a tecnologia que deveria aproximar pode nos anestesiar — e isolar
ainda mais.
A IA pode, sim, ser uma ponte. Especialmente num país como o Brasil,
onde o acesso à saúde mental ainda é um privilégio. Em um cenário onde uma
sessão de terapia pode custar de R$200,00 a R$600,00 e o sistema público é
sobrecarregado, ter alternativas pode ser um alívio. Mas precisamos de clareza:
não podemos usar soluções tecnológicas para resolver dilemas emocionais que
exigem presença, escuta e afeto.
Empatia verdadeira exige humanidade. Discordar, acolher, insistir. Isso,
nenhuma máquina será capaz de simular por completo. A inteligência artificial
deve nos apoiar — nunca nos substituir. Que ela seja uma ferramenta para nos
reconectar com o essencial: gente cuidando de gente.
“Máquinas podem aliviar. Mas só gente de verdade pode curar.”
*Por Virginia Planet, sócia da House of Feelings, primeira escola de
sentimentos do mundo
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