Porto Velho (RO) quarta-feira, 11 de março de 2026
opsfasdfas
×
Gente de Opinião

Artigo

Riscos, saúde e produção de conhecimentos para a justiça ambiental: o caso da mineração de urânio em Caetité, BA


Riscos, saúde e produção de conhecimentos para a justiça ambiental: o caso da mineração de urânio em Caetité, BA - Gente de Opinião

No município de Caetité, sertão baiano, encontra-se a única mina de urânio em atividade no Brasil, operada desde 2000 pelas Indústrias Nucleares do Brasil (INB). Entretanto, a operação deste empreendimento, desde seu início, recebe críticas de comunidades locais e movimentos sociais com atuação na região. As alegações apontam que a empresa omite informações importantes sobre os riscos e impactos à saúde e ao ambiente, decorrentes das atividades desenvolvidas. Suspeitas de contaminação ambiental são reforçadas pelos acidentes ocorridos, principalmente nos casos em que houve vazamento de material radioativo para o ambiente.

A situação de Caetité, portanto, evidencia um cenário de desinformação e incertezas quanto aos riscos e impactos potencialmente atribuídos às atividades de mineração e beneficiamento de urânio na região, que atingem, sobretudo, trabalhadores da mina e comunidades rurais vizinhas. Este é o quadro analisado em minha tese de doutorado em Saúde Pública intitulada “Riscos, saúde e produção de conhecimentos para a justiça ambiental: o caso da mineração de urânio em Caetité, BA”, defendida no final de abril de 2015, na Fiocruz.

Basicamente, o trabalho assume que as abordagens técnico-científicas clássicas de investigação e produção de conhecimentos mostram-se limitadas para lidar com situações que envolvem riscos complexos, especialmente em contextos de conflito e injustiças ambientais, como a que se verifica em Caetité. Desta forma, buscou-se discutir criticamente a importância de estratégias alternativas de produção de conhecimentos, as quais sejam capazes de incorporar o saber situado (investido na experiência) dos sujeitos atingidos, a fim de permitir uma compreensão mais contextualizada a respeito de riscos tecnológicos complexos e suas implicações para o ambiente e a saúde.

Para tanto, foram tomadas como referência as seguintes experiências participativas de produção de conhecimentos acerca dos riscos e impactos das atividades de mineração e beneficiamento de urânio em Caetité: a oficina sobre justiça ambiental e monitoramento comunitário de radioatividade, realizada em 2012, no âmbito do Projeto Organizações de Justiça Ambiental, Responsabilidades e Comércio (EJOLT) liderado pela Universidade Autônoma de Barcelona que foi desenvolvido de 2012 a 2015 e envolveu dezenas de instituições de pesquisa e organizações de justiça ambiental de vários países (http://www.ejolt.org/); a missão CRIIRAD em Caetité, no ano de 2014, a fim de realizar atividades de monitoramento participativo de radiações ionizantes no entorno das instalações da mina de urânio e o estudo de epidemiologia popular, cujo intuito consistiu na sistematização das informações relacionadas a casos de câncer, na região de influência da mina de urânio, coletadas por organizações locais da sociedade civil de Caetité.

Diante das evidências analisadas ao longo da tese, argumenta-se que as atividades de mineração e beneficiamento de urânio em Caetité se desenvolvem segundo um padrão que agrava as situações de risco para os trabalhadores e para os moradores do entorno da mina. O conflito em torno da exploração de urânio também revela as limitações de abordagens científicas tradicionais (altamente especializadas e sem muita abertura à participação social) para lidar com problemas que envolvem riscos complexos. Assim, o trabalho sugere que é preciso ir além e também considerar as incertezas existentes, seu contexto, as controvérsias, o ocultamento de informações, os processos de desinformação e os interesses relacionados. Neste sentido, portanto, ressalta-se a contribuição dos movimentos por justiça ambiental e da valorização do saber situado, como forma de apresentar novas versões de conhecimentos, a partir do ponto de vista dos sujeitos que vivenciam as situações concretas de riscos.

A íntegra da pesquisa está em https://neepes.ensp.fiocruz.br/sites/default/files/tese_renan.pdf

* Renan Finamore - engenheiro civil, mestre em Planejamento Ambiental, doutor em Saúde Pública. Atualmente, professor da Escola Politécnica da UFRJ e do Núcleo Interdisciplinar para o Desenvolvimento Social (NIDES/UFRJ).

Foto – Relatório de fiscalização do IBAMA

Gente de OpiniãoQuarta-feira, 11 de março de 2026 | Porto Velho (RO)

VOCÊ PODE GOSTAR

O investimento invisível que protege o lucro e as pessoas

O investimento invisível que protege o lucro e as pessoas

No universo corporativo, a menção a uma Norma Regulamentadora costuma despertar, de imediato, uma associação com burocracia, fiscalização e, princip

Pagamentos simples para vendas ocasionais e informais

Pagamentos simples para vendas ocasionais e informais

Nem todo mundo vende todos os dias ou mantém um negócio com rotina fixa. Muitas pessoas realizam vendas ocasionais, atendimentos pontuais ou cobranç

Cassinos online reagem à possível Cide-bets e citam risco de avanço do mercado ilegal

Cassinos online reagem à possível Cide-bets e citam risco de avanço do mercado ilegal

Contribuição de 15% sobre depósitos foi retirada do projeto antifacção, mas pode ser reapresentada em novo texto no CongressoO setor de apostas espo

Os arquétipos femininos como espelhos da alma humana

Os arquétipos femininos como espelhos da alma humana

Por que a mulher, mesmo desempenhando bem os papéis que a vida lhe confiou, por vezes não se sente plena? Onde reside a verdadeira realização da nat

Gente de Opinião Quarta-feira, 11 de março de 2026 | Porto Velho (RO)