Porto Velho (RO) quarta-feira, 11 de março de 2026
opsfasdfas
×
Gente de Opinião

Artigo

Ser Professor é Profissão, Não é Sacerdócio e Nem Missão

Falas equivocadas em evento da SEDUC, na véspera do Dia dos Professores, revelam a persistência de visões romantizadas e desinformadas sobre a docência — e reforçam a necessidade de reconhecer o papel social, cultural e crítico do professor.


Ser Professor é Profissão, Não é Sacerdócio e Nem Missão - Gente de Opinião

Na véspera do Dia dos Professores, durante um evento institucional promovido pela Secretaria de Estado da Educação (SEDUC), que reuniu diversas autoridades e representantes públicos, incluindo dois deputados estaduais, o que poderia ser um momento que valorizasse o papel do professor acabou se transformando em motivo de indignação.

Um dos parlamentares afirmou que “ser professor é um sacerdócio, que o professor trabalha por amor”. O outro, em tom semelhante, declarou que “ser professor não é profissão, é missão” e completou dizendo que “o professor transmite conhecimento”.

Difícil permanecer indiferente diante de discursos assim. Eu mesma, confesso, me contorci na cadeira ao ouvir tamanha insensatez. Sacerdócio? Desde quando exercer a docência é equivalente à autoridade de representar Deus na Terra? O sacerdócio, até onde sabemos, é uma função religiosa, atribuída a quem recebe a incumbência espiritual de servir ao divino.

E missão? Missão é a tarefa que alguém executa a pedido de outrem, geralmente sem caráter profissional, sem vínculo formal ou remuneração.

Mas talvez o ponto mais preocupante dessas falas tenha sido a afirmação de que o professor “transmite conhecimento”. Ninguém transmite conhecimento. O ato educativo é, como defende a perspectiva histórico-crítica, um processo dialógico e mediador, em que professor e estudante constroem o saber de forma coletiva e crítica, a partir da realidade concreta e das contradições sociais. Reduzir o ensino à simples “transmissão” é negar o caráter emancipador da educação.

Essas declarações, proferidas justamente por quem ocupa cargos de representação política, revelam o quanto o discurso da “vocação” e do “amor à profissão” ainda serve para mascarar a desvalorização histórica do magistério. Sob uma perspectiva histórico-crítica e cultural, é possível perceber que essa visão romântica e distorcida da docência — ora como missão divina, ora como mera transmissão de conteúdos — é fruto de uma construção social que busca subordinar o trabalho docente, desconsiderando sua natureza intelectual, científica e transformadora.

Trabalhamos, sim, por compromisso ético e pela convicção de que a educação transforma vidas. Mas não — não trabalhamos por amor. Trabalhamos por direito, por dever profissional, por reconhecimento do saber e do esforço que nos constitui como educadores.

Em condições, muitas vezes, precárias, com salários baixos e pouco reconhecimento social, seguimos dedicados à formação de cidadãos críticos. São anos de estudo e aperfeiçoamento contínuo: quatro de graduação, dois de especialização, mais dois de mestrado, quatro de doutorado — e a formação não para aí. Participamos de grupos de pesquisa, eventos, congressos e publicações acadêmicas. Ainda assim, ouvimos de quem ocupa cargos de representação que nosso trabalho não é profissão, mas uma “missão”.

Declarações como essas desrespeitam e desvalorizam uma categoria que carrega sobre os ombros a base de todas as demais profissões. Ser professor é, sim, uma profissão. E uma das mais complexas e essenciais à sociedade.

Neste Dia dos Professores, é fundamental reconhecer a importância social e cultural da docência — um trabalho que ultrapassa os muros da escola e contribui diretamente para a construção de uma sociedade mais crítica, justa e consciente, com cidadãos capazes de refletir, questionar e transformar a realidade em que vivem.

O que esperamos, portanto, não são discursos vazios, mas reconhecimento concreto: políticas públicas de valorização, melhores condições de trabalho, salários dignos e, sobretudo, o respeito à nossa identidade profissional.

Que discursos romantizados e ultrapassados deem lugar à valorização real daqueles que ensinam a pensar — inclusive, a pensar criticamente sobre quem nos representa.

Gente de OpiniãoQuarta-feira, 11 de março de 2026 | Porto Velho (RO)

VOCÊ PODE GOSTAR

O investimento invisível que protege o lucro e as pessoas

O investimento invisível que protege o lucro e as pessoas

No universo corporativo, a menção a uma Norma Regulamentadora costuma despertar, de imediato, uma associação com burocracia, fiscalização e, princip

Pagamentos simples para vendas ocasionais e informais

Pagamentos simples para vendas ocasionais e informais

Nem todo mundo vende todos os dias ou mantém um negócio com rotina fixa. Muitas pessoas realizam vendas ocasionais, atendimentos pontuais ou cobranç

Cassinos online reagem à possível Cide-bets e citam risco de avanço do mercado ilegal

Cassinos online reagem à possível Cide-bets e citam risco de avanço do mercado ilegal

Contribuição de 15% sobre depósitos foi retirada do projeto antifacção, mas pode ser reapresentada em novo texto no CongressoO setor de apostas espo

Os arquétipos femininos como espelhos da alma humana

Os arquétipos femininos como espelhos da alma humana

Por que a mulher, mesmo desempenhando bem os papéis que a vida lhe confiou, por vezes não se sente plena? Onde reside a verdadeira realização da nat

Gente de Opinião Quarta-feira, 11 de março de 2026 | Porto Velho (RO)