Quarta-feira, 8 de abril de 2026 - 07h45

Na omissão do IBAMA, a verdade sobre o consumo de carne silvestre evapora — e a República da Paca prospera, enquanto cidadãos sensatos seguem à espera de respostas que insistem em não vir.

Manual do Delírio Econômico: quando o
absurdo vira argumento, a paca paga a conta — e a solução deságua na ilusão
surrealista, num ciclo geracional de mesmice alimentada pela fé no
improvável.
Um amigo
ultracrepidário — daqueles
que tratam a ignorância
como se fosse especialização — apresentou, com notável convicção, a
verdadeira causa do endividamento de 84% das famílias brasileiras: o consumo desenfreado
de carne de paca de cativeiro.
Sim, finalmente
alguém teve coragem de ignorar todos os fatores irrelevantes —
inflação, juros, carga tributária, perda de renda — e
apontar o verdadeiro culpado: o prato do brasileiro, que, ao que parece,
tornou-se sofisticadamente subterrâneo.
Durante anos,
economistas, analistas e instituições perderam tempo tentando explicar o óbvio.
Bastava observar: não é a
escassez que endivida — é o excesso… de paca.
E não
qualquer excesso. Trata-se de um fenômeno quase aristocrático, no qual o Brasil, segundo essa
brilhante leitura, lidera o mundo — ainda que apenas
no mesmo território onde essa tese foi concebida: o da
desconexão absoluta com a realidade.
Enquanto isso, a
prometida picanha foi, sim, entregue. Com rigor estético e
compromisso simbólico. Não chegou à mesa como
alimento — mas como estampa em toalhas de plástico e de
tecido, permitindo que o povo, ao menos, exercite a contemplação daquilo que
nunca provou.
Há algo de admirável nessa
capacidade de reconstruir a realidade até que ela se torne
confortável
— ou, no mínimo, risível.
E, nesse cenário, chama atenção o silêncio institucional diante de temas que, quando envolvem o cidadão comum, costumam ser tratados com rigor exemplar.
A ausência de
esclarecimentos por parte de órgãos como o IBAMA sobre a origem de
determinados consumos de animais notadamente silvestres não passa despercebida — sobretudo
em um país onde a
fiscalização, quando direcionada à população, é frequentemente
ágil, precisa,
implacável e
por vezes, covarde.
Curiosamente,
essa mesma eficiência
parece perder tração quando o objeto da apuração envolve figuras de maior
relevância política ou
institucional.
Não se trata de incapacidade — isso
seria até mais confortável de admitir.
Mas de uma assimetria que levanta questionamentos inevitáveis sobre critérios,
prioridades e, por vezes, sobre a própria independência de
estruturas que deveriam operar sob o princípio da impessoalidade.
Ainda assim, é importante
reconhecer: tais instituições são compostas, em
grande parte, por profissionais técnicos e comprometidos com a ética.
O que torna o contraste ainda mais inquietante — não pela ausência de
capacidade, mas pela percepção de contenção.
E assim, entre
silêncios
seletivos e rigor direcionado, a confiança pública vai sendo corroída… não por um ato isolado, mas por um padrão
que se repete — e se naturaliza.
O mais curioso é que tais
análises não
surgem da falta de informação, mas de algo mais profundo: a recusa ativa em
pensar com responsabilidade.
Porque pensar
exige confronto.
Exige
desconforto.
Exige,
sobretudo, abandonar a fantasia conveniente.
Mas isso
implicaria renunciar ao papel de comentarista onisciente — função à qual certos
indivíduos se
agarram com mais firmeza do que aos fatos.
E, como se
não bastasse, há cidadãos
que se prestam ao papel de justificar o injustificável e defender o
indefensável,
aderindo — com impressionante devoção — às mesmas
promessas recicladas por estelionatários eleitorais que reaparecem, pontualmente, a
cada temporada política.
Sem pudor.
Sem
constrangimento.
Sem vergonha.
E, ao que tudo
indica, sem memória.
Seguem
acreditando, não por falta de evidência…
mas por uma
escolha deliberada de ignorá-la.
Quanto ao senso
do ridículo,
não apenas foi abandonado — foi substituído por uma
confiança
inabalável na
própria superficialidade.
E assim
seguimos:
uma sociedade onde
muitos não compreendem o que dizem,
mas verborragiam
bobagens com absurda convicção…
que quase
convencem a si mesmos.
Na emergente República da Paca, o
absurdo não apenas governa — é venerado por ignorantes e a realidade se ajoelha… enquanto a ilusão é coroada.
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