Sexta-feira, 5 de fevereiro de 2021 - 17h06
Bagé, 05.02.2021
Foz do Breu, AC/ Manaus, AM ‒ Parte XXII
Francisco D’Ávila e
Silva III
O correspondente do Jornal do Comércio, residente em Manaus, disse que
há, seguramente, dois anos, telegrafara ao dito jornal, dando o sinal de
alerta, descobrindo o plano dos nossos vizinhos e narrando casos que, se
fôssemos mais previdentes, não se repetiria com a gravidade de hoje. Em
setembro de 1903, vários comerciantes de Belém do Pará procuraram o Governador
do Estado, na qualidade de aviadores dos seringais do Juruá e do Purus, para
indagar do Governo Federal, se era regular a publicação seguinte, feita na
imprensa da capital:
Consulado General del Perú
Se previene a los embarcadores de carga con destino al Alto
Purús y Alto Juruá que las mercaderías para puntos situados más arriba de la
Boca del Chandless en el primer Río, y la Boca del Amoneya en el segundo, deben ir acompañado de los respectivos
documentos expedidos por este Consulado Genérale, para ser tramitados en los
puertos aduaneros peruanos existentes en los citados puntos.
Belém del Pará, 18 de setiembre de 1903.
D. E. Pereira
Cónsul Genérale del Perú
O Governador Montenegro entendeu-se imediatamente, pelo telégrafo, com o Ministro
Rio Branco, que, assim retorquiu:
Petrópolis, 29, setembro
Respondo ao telegrama de V. Exa. recebido na noite de 24, corrente.
Carregadores de mercadorias em embarcações que se destinam aos afluentes
meridionais do Amazonas a Leste do Javari, portanto ao Juruá acima da boca de
Amônea e ao Purus acima da do Chandless, não devem legalizar os seus papéis no
Consulado Geral do Peru.
O governo brasileiro não reconhece os postos aduaneiros do Amônea e do
Chandless.
Att. Sds. ([1]) Rio
Branco
O governador do Estado deu conhecimento oficial deste telegrama ao Cônsul
geral do Peru em Belém. Notícias do alto Juruá confirmavam a existência do
Posto Fiscal peruano “na Boca do Amônea”,
em território brasileiro, guarnecido por trinta praças do exército, e, que
diariamente, às 06h00 e às 18h00, içam e arriam a bandeira peruana com grande
solenidade: vivendo os brasileiros ali residentes coagidos em sua liberdade,
receando a cada momento uma violência por parte dos peruanos que exigem a
entrega de gêneros e mercadorias, sem o respectivo pagamento, verdadeiros atos
de soberania e de rapina. Um Tenente do exército peruano chamado Dagoberto
Arriaran, que ia se tornar famoso pelas suas violências contra os vapores
brasileiros, em trânsito por aquelas paragens, partiu de Iquitos, em fins de
outubro ou princípio de novembro, com o nome trocado, já nomeado para assumir o
comando do destacamento estacionado no Amônea e com instruções para “observar” as forças e elementos com que
os brasileiros podiam contar, de pronto.
A primeira parte de sua missão já foi cumprida com a remessa ao Prefeito
de Iquitos de um relatório sobre o que viu, restando executar a segunda. Bem
disfarçado, passando por caixeiro de uma casa comercial de Iquitos, tomou
passagem, a bordo do vapor Barão de Belém, no dia 11.11.1903, com destino ao
Amônea. No meio da viagem, um passageiro desconfiou do papel que ele estava
representando e comunicou esta suspeita aos seus companheiros, provocando
grande indignação contra o espião, pelo que resolveram abandoná-lo num barranco
qualquer. Ele, porém, corajoso e ousado, fez-se de vítima e tão bem se houve
que, os passageiros, na dúvida, consentiram que ele prosseguisse viagem. Uma
vez no Amônea, o simulado caixeiro transformou-se e passou a ser o que, realmente
era, um oficial do exército peruano, com várias incumbências.
Antes de sua chegada, o Posto Militar e Fiscal existente na Foz do
Amônea, desde novembro de 1902, e, em 1903, intitulado pelos invasores de Nuevo
Iquitos, obrigava os Comandantes dos navios brasileiros que, por ali
transitavam, a içarem a bandeira peruana no mastro da proa, como aconteceu, em
novembro de 1903, aos vapores nacionais “Contreiras”,
“Moa” e “Canutama”. O Comandante do primeiro, fez ver ao Alferes Marcial que
não podia cumprir, em território e águas brasileiras, ordens dadas por
estrangeiros, ao que o Comissário peruano redarguiu que se não fosse executada
a determinação, abriria fogo contra a embarcação. O Comandante pensou em
desobedecer à insólita notificação, mas, como tinha a bordo algumas famílias
que podiam ser vítimas das balas dos invasores do nosso território, aceitou uma
bandeira que lhe foi oferecida, lavrando, todavia, um protesto contra essa
violência.
O Comandante do segundo, recebeu idêntica intimação, porém, resistiu, e
talvez, por não terem os peruanos outra bandeira disponível para oferecer, o
navio pôde prosseguir. Na volta desta embarcação, o Comissário aludido avisou o
seu Capitão para prevenir a todos os seus colegas que pretendessem subir o alto
Juruá, de que deviam hastear o pavilhão peruano, a fim de não verem a sua
viagem perturbada. O Comandante do terceiro, também se opôs à intimação do
Alferes Marcial, recebendo, por isso, o seu barco, várias descargas de rifle. Todos
os Comandantes apresentaram, ao Capitão do porto do Estado do Amazonas, os
protestos regulamentares.
Depois disto, passaram a cobrar impostos sobre exportação, importação,
trânsito, consumo, expediente, produtos da região, além de distribuírem aos
moradores do alto Juruá, uma circular avisando de que deviam ir registrar os
seus nomes e títulos de propriedades, na aduana da Foz do Amônea, sob penas
severíssimas.
Ainda no ano de 1903, no dia 9 de dezembro, atracou no porto do barracão
Minas Gerais, contíguo ao local em que se achava o acampamento dos peruanos, o
primeiro situado na margem direita do Rio Amônea, e o segundo na esquerda, o
vapor brasileiro “Costeira” que,
minutos após recebia a visita de um oficial peruano, o qual intimou o
Comandante do vapor a içar o pavilhão do seu país; como prova de reconhecimento
da soberania peruana no território.
Como o Comandante do barco se negasse a atendê-lo, o oficial aludido
desistiu, cingindo-se, apenas a indagar se o manifesto do navio havia sido
visado, pelo cônsul peruano de Manaus, e tendo resposta negativa, o navio
prosseguiu sua viagem para o Rio Tejo.
De retorno, a tropa peruana estava formada no barranco, indo a bordo o
Tenente Dagoberto Arriaran, acompanhado de três praças. Intimado o Comandante a
içar a bandeira do Peru e a exibir o manifesto da borracha para ser visada e
pagar os direitos correspondentes, o Comandante José Joaquim Martins estranhou
as exigências, pelo que Arriaran ameaçou atirar contra a embarcação, ante o que
o Comandante convocou o conselho de oficiais, o qual anuiu não resistir, para
não sacrificar vidas, opondo-se, porém, ao içamento da bandeira. Com a notícia
do pagamento do imposto. Arriaran dispensou aquela formalidade, e escreveu no
manifesto que os produtos constantes do mesmo eram de procedência peruana,
cobrando os impostos de 8 centavos por quilograma de borracha e 5 centavos pelo
de caucho, datando de: “Boca del Amoneya,
5 de Enero de 1904” e assinando – “Dagoberto
Arriaran”, e ao lado, um carimbo em que se lia: “Aduanilla fluvial de Iquitos. Alto Yuriá”.
Não tendo o Comandante dinheiro para satisfazer o pagamento, Dagoberto
contentou-se com um saque a noventa dias, contra a casa “Melo. e Ciª”, do Pará, do que passou recibo. Destarte ([2]),
resolveu a aduana peruana cobrar impostos no ano de 1904, resolução esta que
teve aplicação desde o dia 1° de janeiro. Também teve que pagar os impostos que
o Tenente Arriaran entendeu cobrar, o comerciante de Manaus, João A. de
Freitas, que fora ao Amônea, buscar caucho.
No acampamento do Amônea tinham os peruanos 40 praças de infantaria,
comandadas por um 1° Tenente e dois oficiais, além de outro que exercia o cargo
de chefe da alfândega ali estabelecido: constando que, no varadouro do Rio
Amônea para o vale do Ucayali havia 200 homens armados, em comunicação com
Iquitos, por meio de lanchas de guerra: forças estas ali estacionadas para
apoiar a avançada da Boca do Amônea.
O Jornal do Comércio, de Belém [Pará], relatava, um ou dois meses depois,
que a referida guarnição era composta de 60 a 80 homens, armados de mannlicher
([3]), que
esperava artilharia, pelo varadouro do Amônea, a fim de apoderar-se da vila de
São Felipe, sita ([4])
no Baixo Juruá. Como se vê a situação dos brasileiros na região, foi pouco a
pouco piorando, com a atitude dos peruanos de pretenderem a viva força
estabelecer o seu domínio no Alto Juruá.
Na 1ª fase, limitaram-se a estudar o ambiente e instalar alguns pontos de
apoio ao seu comércio e a extração de caucho, para o que trouxeram até gente
armada.
Na 2ª, já depois de instalados na Foz do Amônea os funcionários da “Aduanilla” cingiam-se a exigir o
içamento do seu pavilhão no mastro de proa das embarcações brasileiras, ao
passo que, ultimamente, suficientemente armados passaram a efetuar a cobrança
de vários impostos, e fiados nas balas de suas carabinas, o Comissário Arriaran
aconselhava, como um soberano autocrata, aos devedores para não pagarem aos
seus patrões credores, classificando estes de usurpadores de direitos peruanos
por se acharem explorando terrenos pertencentes à sua nação: determinação esta
que poderia acarretar uma conflagração de consequências incalculáveis. (SOBRINHO,
1959)
Bibliografia
SOBRINHO, Dr. José Moreira Brandão Castello Branco. Peruanos na
Região Acreana – Brasil – Rio de Janeiro, RJ – Revista do Instituto
Histórico e Geográfico Brasileiro – Volume 244 – Departamento de Imprensa
Nacional 1959.
Solicito Publicação
(*) Hiram Reis e Silva é Canoeiro, Coronel de Engenharia, Analista de
Sistemas, Professor, Palestrante, Historiador, Escritor e Colunista;
· Campeão do II
Circuito de Canoagem do Mato Grosso do Sul (1989)
· Ex-Professor
do Colégio Militar de Porto Alegre (CMPA);
· Ex-Pesquisador
do Departamento de Educação e Cultura do Exército (DECEx);
· Ex-Presidente
do Instituto dos Docentes do Magistério Militar – RS (IDMM – RS);
· Ex-Membro do
4° Grupamento de Engenharia do Comando Militar do Sul (CMS)
· Presidente da
Sociedade de Amigos da Amazônia Brasileira (SAMBRAS);
· Membro da
Academia de História Militar Terrestre do Brasil – RS (AHIMTB – RS);
· Membro do
Instituto de História e Tradições do Rio Grande do Sul (IHTRGS – RS);
· Membro da
Academia de Letras do Estado de Rondônia (ACLER – RO)
· Membro da
Academia Vilhenense de Letras (AVL – RO);
· Comendador da
Academia Maçônica de Letras do Rio Grande do Sul (AMLERS)
· Colaborador
Emérito da Associação dos Diplomados da Escola Superior de Guerra (ADESG).
· Colaborador
Emérito da Liga de Defesa Nacional (LDN).
· E-mail: hiramrsilva@gmail.com.
[1] “Att.”: do
inglês – “for the attention of”. “Sds.”: saudações.
[2] Destarte: assim
sendo.
[3] Mannlicher:
fuzil 8 mm projetado pelo austríaco Ferdinand Ritter Vonn Mannlicher, em 1888.
Arma robusta e precisa com alta cadência de fogo. Pesava: 3,80 kg, com um
comprimento total de 1,272 m, um cano de 0,765 m e um carregador com capacidade
para 5 cartuchos.
[4] Sita: situada.
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