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Hiram Reis e Silva

O Estilo Médici


O Estilo Médici - Gente de Opinião

Bagé, RS, 23.03.2026

 

Vamos continuar reproduzindo as reportagens da Revista Manchete:

 

 

Manchete n° 921, Rio de Janeiro, RJ

 

Sábado, 13.12.1969

 

O Estilo Médici

 

(Reportagem de Murilo Melo Filho)

 

 

Sóbrio, Discreto e Seguro, o Novo Presidente já Cumpriu Algumas de Suas Promessas: A Reabertura do Congresso, o Reinício do Diálogo Político e o Abrandamento da Correção Monetária.

 

Ao completar 64 anos de idade, neste 4 de dezembro, ele estaria às vésperas de uma ansiada compulsória que lhe proporcionasse o repouso merecido, após quase 50 anos de serviços prestados ao Exército. Escalara todos os degraus da sua carreira, atingira-lhe o ápice e nada mais haveria a esperar. Como indumentária, em lugar do pijama, vestiram-lhe uma faixa. Como domicílio, em vez da fazenda de Bagé, deram-lhe um Palácio em Brasília. Como serviço, ao contrário da repousante reforma, impuseram-lhe mais quatro anos de atribulado mandato.

 

Seu Objetivo Principal é Reaproximar Civis e Militares

 

Um ex-Presidente fizera certa vez uma advertência que a trombose no seu antecessor só conseguiu confirmar:

 

Presidência da República, no Brasil, não é emprego para homem de mais de 60 anos.

 

Ninguém melhor do que o General Médici conhece suas condições de saúde e sabe a facilidade com que suas coronárias aumentam perigosamente de pressão. Por isso, submeteu-se a métodos de trabalho bem diversos daqueles que levaram o Marechal Costa e Silva a uma cadeira de rodas:

 

1.  As frequentes viagens entre Rio e Brasília, com as consequentes oscilações de altitude, foram substituídas por uma permanência maior na nova Capital, que agora será realmente consolidada.

 

2.  As violentas locomoções para os Estados e numerosas inaugurações foram divididas com o Vice-Presidente, que assim passou a ter maior e mais preeminente atuação.

 

3.  As centenas de audiências cederam lugar a uma racionalização do trabalho, através dos Ministros, que doravante cuidarão diretamente dos seus segundos e terceiros escalões e serão por eles responsáveis.

 

Com pouco mais de trinta dias no poder, seu novo ocupante já disse a que veio. O estilo é sóbrio, discreto, seguro. Prefere perder um pouco na velocidade das decisões em favor de uma maior segurança, como aconteceu na escolha dos diretores do Banco do Brasil, Banco Central, BNDE, IAA, IBC, SUNAB, IRB, EMBRATUR e outros cargos do segundo nível da administração. Os pronunciamentos são estudados e meditados da primeira à última linha, como ocorreu na oração a um grupo de parlamentares cristãos:

 

Ontem, Dia Nacional de Ação de Graças, como em cada dia, mais que em todos os dias deste começo de meu Governo, voltei-me para Deus. E nos passos do “Te Deum” do Palácio do Planalto, despojei-me todo e, homem só, deixei cair a seus pés a minha gratidão. Agradeci tudo o que, a mim e aos meus, dado me foi. Agradeci ao Criador as graças da criatura qualquer, agradeci-lhe a vida e a saúde, a família e o amor, a esperança e a paz, meu caminho, meu tempo, minha luz.

 

As promessas que fez, antes mesmo de empossar-se, já começam a ser cumpridas: reabertura do Congresso, com o recomeço do diálogo e a humanização da política econômica, com o abrandamento da correção monetária. A convivência com a área política começa a dar seus frutos, após os traumas que abriram fundas feridas no organismo partidário: a cicatrização terá de ser lenta e o próprio Presidente Médici, sob cuja liderança ela se processa, já previu que somente no final do mandato espera vê-la concluída.

 

Realizaram-se as eleições para prefeito em 965 municípios. Reuniram-se as convenções da Arena e do MDB para escolha de seus dirigentes. Encerrou-se a sessão legislativa do Congresso em 1969 com a esperança de sua reabertura em abril de 70. Estão praticamente escolhidos o Senador e o Deputado que presidirão o Senado e a Câmara no próximo ano. Ministros e Presidentes de autarquias que foram mantidos em seus postos não poderão candidatar-se a Governador. E os atuais Governadores deverão, em princípio, manter-se em seus cargos até o final dos mandatos. Montou-se todo o cenário dentro do qual cada personagem saberá desempenhar dignamente seu papel.

 

Filiando-se à Arena, visitando o Congresso, anunciando que visitará o Supremo em janeiro e sugerindo aos seus Ministros que façam o mesmo, ele quer evidentemente pular o fosso que durante dez meses separou civis e militares. Agora estão firmados compromissos públicos entre ele e a classe política: ambos terão de cumpri-los rigorosamente se quiserem assegurar uma coabitação pacífica e duradoura ao longo dos próximos 4 anos.

 

É óbvio que o General Médici, com tão poucos dias no Governo, não tem a ilusão de já se considerar um grande Presidente. Corteja a popularidade, mas não é demagogo. Quer ser líder, mas sem prepotência. Considera-se um Chefe, mas não um arbitrário. Tenciona mostrar-se ao povo, mas sem exibicionismo. Sonha com a disciplina consentida, mas não imposta. Quer ser combatido, pede à oposição que se oponha, implora aos adversários que o fiscalizem, mas não admite ser ameaçado. Ele espera realmente ser um grande Presidente, mas só daqui a 48 meses, neste mesmo 4 de dezembro, quando estiver completando 68 anos. (MANCHETE N° 921)

 

(*) Hiram Reis e Silva é Canoeiro, Coronel de Engenharia, Analista de Sistemas, Professor, Palestrante, Historiador, Escritor e Colunista;

 

YYY Coletânea de Vídeos das Náuticas Jornadas YYY

https://www.youtube.com/user/HiramReiseSilva/videos

 

Campeão do II Circuito de Canoagem do Mato Grosso do Sul (1989);

Ex-Vice-Presidente da Federação de Canoagem de Mato Grosso do Sul;

Ex-Professor do Colégio Militar de Porto Alegre (CMPA);

Ex-Pesquisador do Departamento de Educação e Cultura do Exército (DECEx);

Ex-Presidente do Instituto dos Docentes do Magistério Militar – RS (IDMM – RS);

Ex-Membro do 4° Grupamento de Engenharia do Comando Militar do Sul (CMS);

Ex-Presidente da Sociedade de Amigos da Amazônia Brasileira (SAMBRAS);

Membro da Academia de História Militar Terrestre do Brasil – RS (AHIMTB – RS);

Membro do Instituto de História e Tradições do Rio Grande do Sul (IHTRGS – RS);

* O conteúdo opinativo acima é de inteira responsabilidade do colaborador e titular desta coluna. O Portal Gente de Opinião não tem responsabilidade legal pela "OPINIÃO", que é exclusiva do autor.

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