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Lucio Albuquerque

PROCURA-SE O DELEGADO


 

Lúcio Albuquerque,
repórter, jlucioalbuquerque@gmail.com

 

Em 1931 o major Aluízio Pinheiro Ferreira já se afirmara como a grande liderança comunitária no que hoje é Rondônia. E naquele dia 30 de julho ele consolidou, com uma trama bem urdida, essa posição.

A história a seguir foi contada ao autor de “Datas de Rondônia” pelos historiadores Esron Penha de Menezes (já falecido) e Abnael Machado de Lima, além do jornalista Euro Tourinho.

Tudo começou uma semana antes, quando a direção do consórcio responsável pela EFMM decidiu encerrar suas atividades e requereu à Vara da Justiça Federal, no Rio de Janeiro, dia 25, que o Governo Brasileiro assumisse a administração da ferrovia.

Mas na noite do dia 29 de junho, correu o boato de que a administradora estrangeira estava “armando” um trem para sair na manhã, bem cedo, de Porto Velho rumo a Guajará-Mirim.. E designou o que os narradores citaram como “o melhor dos pilotos”, o maquinista Heron.

Logo a notícia chegou ao conhecimento de Aluízio e ele determinou que aí pelas 5 horas dois ou três de seus homens de confiança, fossem, fingindo-se de bêbados, insultar o maquinista. Ordem dada, poucos tinham coragem de dizer “não” ao “soba”, ela foi prontamente executada. Confusão armada, bate-boca, tumulto, o trem não saiu porque chegou a polícia e levou os envolvidos para a delegacia.

Aí começou a outra parte da trama: numa cidade com poucos habitantes, onde todos se conheciam e praticamente sabiam aonde cada um andava ou fazia, simplesmente o delegado desapareceu. Fingindo irritação, Aluízio determinou autêntica busca para localizar o delegado, enquanto as horas passavam, e nada.

Foi uma grande busca em toda a cidade, menos, claro, na residência do próprio Aluízio onde, pelo que foi comentado então e repassado pelos que me contaram o fato, o delegado passou o dia, saindo apenas quando já era mais de 18 horas. Ele foi à delegacia para “ouvir” o maquinista Heron (*) e os “bêbados” que, claro, justiça foi feita: ficaram presos e, com desculpas do delegado, o maquinista foi mandado para casa.

No dia seguinte, por telegrama, Aluízio informou às autoridades no Rio de Janeiro que a Madeira-Mamoré Railway descumprira sua parte no acordo com o Brasil e, dias depois, o próprio Aluízio foi nomeado superintendente da Madeira-Mamoré, e o Brasil cumpriu sua parte, assumindo a ferrovia.


*(*) O maquinista Heron foi avô do jornalista William Jorge Rodrigues Heron, com quem o autor teve a honra de trabalhar no Alto Madeira.

* O conteúdo opinativo acima é de inteira responsabilidade do colaborador e titular desta coluna. O Portal Gente de Opinião não tem responsabilidade legal pela "OPINIÃO", que é exclusiva do autor.

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