Sexta-feira, 23 de setembro de 2011 - 05h22
SÍNDROME DA PRIMEIRA VEZ
(Ou vale tudo para puxar saco)
Nem contra e nem a favor. Quando perguntam qual o conceito que posso dar sobre esses 9 meses de governo da senhora Dilma, respondo que está na hora do governo nascer efetivamente e ganhar cara própria. Porque até agora tem muito do passado, ficando para nós outra síndrome, a “síndrome do que vai acontecer amanhã”, pelas defenestrações seguidas de ministros, a sensação de que ainda vem mais coisa por aí.
Mas interessante mesmo é o festival de bajulação que tenho ouvido nos últimos dias, com relação ao fato da senhora Dilma ter feito o discurso de abertura do ano de sessões da ONU. Até pessoas que eu supunha, pelo alardeamento de terem um nível acadêmico maior que a maioria, nunca iriam chegar às raias da louvação que tenho ouvido.
É o que chamo de “síndrome da primeira vez”, tão comum em muitos jovens da minha época de jovem, e que agora enche de orgulho os peitos daqueles que aproveitam qualquer coisa para louvar, apenas porque se comportam como autênticos áulicos, cometendo até erros históricos como ainda nesta quarta-feira foi lembrado, nessa questão da “síndrome da primeira vez” que a mãe do governador de Pernambuco, aprovada para ser ministra do TCU seria a primeira mulher a ocupar uma cadeira ali.
Quem noticiou isso se esqueceu de uma coisa, que Élvia Lordello Castello Branco foi ministra do TCU na década de 1980, faz pouco tempo, mas para quem gosta de elogiar o que importa é o “agora”, ainda que, agindo dessa forma, exponha-se ao ridículo e atropele a história.
Voltemos à senhora Dilma e por qual motivo ela, e não Margareth Thatcher, foi a primeira mulher a falar na sessão de abertura da ONU, motivo de tanta louvação entre aqueles que sempre louvam quem esteja no Poder. Uma turma para a qual “o melhor chefe é sempre o próximo”.
Segundo Ricardo André de Vasconcelos, em seu blog ricandrevasconcelos.blogspot.com, tudo começou com a briga entre Estados Unidos e União Soviética. Mas, leia sua explicação:
“A primeira reunião preparatória da ONU se realizara em Londres, em 7 de janeiro de 1946, destacando-se na delegação brasileiraCiro de Freitas Valle, então embaixador no Canadá, deslocado para Londres depois de ter assistido à assinatura da Carta em São Francisco. Ciro era uma vigorosa personalidade. Bem apessoado, bom gourmet e cultor inveterado do whisky, afirmou-se em Londres como importante personalidade. Como nem os Estados Unidos nem a União Soviética, já mutuamente suspicazes (*), quisessem iniciar os debates, Ciro se inscreveu como primeiro orador e isso marcou a tradição, até hoje mantida, de ser o Brasil o primeiro a orar nas Assembléias Gerais da ONU.”
Ora, convenhamos: antes da senhora Dilma outras mulheres fizeram ouvir suas vozes nas reuniões da ONU. O único diferencial é que a senhora Dilma abriu o ano de conferências da Organização, o que não representa nenhum degrau a mais galgado pelas mulheres, como alguns apregoam. Apenas coincidência, como o texto acima prova.
O fato da última quarta-feira foi a apenas a coincidência de, pela primeira vez, termos uma mulher na presidência do país que, só por esperteza de um membro da delegação brasileira em 1946, acabou virando tradição (o país) em abrir a sessão.
Ou alguém imagina que se já existisse a ONU quando a Princesa Isabel Cristina Leopoldina Augusta Micaela Gabriela Rafaela Gonzaga de Bragança e Bourbonexerceu uma das três vezes a Regência do governo do Imperío, quem duvida que teria sido ela a abrir a sessão?
(*) Suspicaz (es) – O que causa suspeita
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