Sábado, 28 de agosto de 2021 - 16h23
O mundo nunca foi justo.
Quando mais jovem acreditei na utopia de que a nossa geração, os nascidos na
segunda metade do século XX, poderiam transformar o mundo num lugar de maior
justiça social. Era um sonho das pessoas jovens e, grande parte de melhor formação
da sociedade brasileira, muitos dos quais se embeberam de Marx, Engels,
Gramsci, Marcuse e Jean Paul Sartre, que se apresentava como o intelectual
engajado com as causas sociais,
acreditavam na capacidade de fazer mudanças rápidas. Havia a crença, pouco
justificada cientificamente, de que seríamos capazes de mudar as condições
sociais pela atuação dos intelectuais e pela conscientização dos trabalhadores.
Olhando para trás não há como não sorrir da nossa ingenuidade. O conceito de
classe social marxista em que nos baseamos-só os cegos pela ideologia-não
conseguiram ver que se dissolveu pela realidade. Marx, que no fim da vida não
era mais marxista-possivelmente torceria o nariz para uma infinidade de
intelectuais que se dizem marxistas por repetir chavões sem nenhuma correlação
com a realidade moderna. E olhe que Marx, apesar de seu indiscutível talento,
depois de arrasar intelectualmente Bakunin ouviu dele a sua sentença definitiva
quando confessou, com humildade, que não tinha condições de discutir com ele,
mas, que, em compensação, Marx “não entendia nada da natureza humana”. Aliás,
ele passou a vida inteira, praticamente, sem conseguir manter sua própria vida,
o que, no mínimo, é constrangedor para quem se julgava capaz de tudo explicar.
Há uma imensa quantidade de imitadores atuais-até mesmo sem saber.
Principalmente jovens que não arrumam a própria cama, não se sustentam, não
possuem formação intelectual, muitas vezes, nem exerceram qualquer tipo de
trabalho, mas, se propõem a mudar o mundo. São os próprios homens que
classificam os outros de mocinhos, bandidos, santos, medíocres, bons, ruins. Em
geral, sem ter nem consciência da régua que usam para medir os outros e, menos
ainda de que a história da humanidade tem sido uma história de vencidos e vencedores.
Que o que fez o mundo avançar mais do que a educação foi o desejo de poder. E
domar o egoísmo, o desejo de dominar, de poder dos homens é um processo,
infelizmente, muito lento. É muito fácil julgar o passado e queimar, sem nenhum
senso de ridículo e de falta de civilidade, a estátua de Borba Gato como se ele
tivesse sido apenas um exterminador de índios, mas, a grande realidade é que a
natureza humana mudou muito pouco, embora revestida de mantos mais elegantes.
Esta aí, explodindo em nossos rostos, o problema do Afeganistão, que, no fundo,
não é diferente das guerras de conquistas do passado (os escravos é que mudam).
Nem do ambiente esfumaçado e obscuro do Brasil onde uma pandemia exacerbou a
luta pelo poder sem nenhum respeito ao sofrimento dos mais pobres. E me espanta
ver que pessoas que pensam que pensam tomar partido numa luta que só tem como
vítima a população brasileira. Talvez, de vez que o mundo não mudou na sua
essência, o que tem de novo na antropofagia brasileira é que os limites da capacidade
de analisar estão totalmente perdidos e a nossa dita elite se comporta com o
apetite dos conquistadores antigos.
Há
500, 400 anos, negros perdedores eram escravizados na África por outros negros
vencedores de disputas territoriais e de supremacia. Depois de capturados, eram
vendidos aos franceses, espanhóis, ingleses, holandeses e portugueses como
mercadoria para servirem nas lavouras do Caribe, dos Estados Unidos, das
colônias espanholas, holandesas e portuguesas. Não vou me meter a analisar a
fundo a escravidão, porque não tenho nem 10% do conhecimento e do talento de um
mestre como Laurentino Gomes. O que sei é que escravos e guerras de conquista
sempre andaram de mãos dadas na História da humanidade...
Aqui não existiam mocinhos e bandidos, santos ou demônios, gente boa ou gente
ruim. Eram seres humanos, nada mais. Querer destruir a memória desses tempos ou
apagar nossa história é repetir o que os talibãs fizeram em Bamiyan, no
Afeganistão, quando destruíram as milenares estátuas gigantes do Buda e
relíquias exibidas em museus no Iraque. Há 300, 400 anos, viver aqui era uma
aventura. Um homem de 40 anos era um ancião. As mulheres se casavam com 12, 13
anos e tinham 10, 12, 15 filhos. Imaginemos o Brasil dos anos 1600 ou 1700, com
uma estreita faixa litorânea ocupada por plantadores de cana,...
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