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Silvio Persivo

É preciso soltar as amarras do Brasil


É preciso soltar as amarras do Brasil - Gente de Opinião

Apesar da tentativa recorrente de dourar a realidade com indicadores reinterpretados ou leituras otimistas do cenário econômico, os fatos acabam sempre se impondo. E os fatos mostram que o Brasil tem perdido, ao longo das últimas décadas, uma corrida decisiva pelo desenvolvimento.

Em 1995, o Produto Interno Bruto (PIB) do Brasil foi de aproximadamente R$ 646 bilhões, em valores correntes. No mesmo período, o PIB da China alcançava 6,16 trilhões de yuans, o equivalente a cerca de US$ 738 bilhões à época. Ou seja, naquele momento, as duas economias apresentavam dimensões relativamente próximas.

Trinta anos depois, porém, o contraste é contundente. Segundo dados recentes de organismos internacionais, em 2024 o PIB da China chegou a US$ 17,32 trilhões, enquanto o PIB brasileiro atingiu cerca de US$ 2,17 trilhões. Em outras palavras, em três décadas a economia chinesa passou de um patamar semelhante ao brasileiro para uma dimensão quase oito vezes maior.

A pergunta inevitável é: como isso aconteceu?

A resposta passa, em grande medida, pelo ritmo de crescimento. Durante esse período, a China sustentou taxas médias superiores a 7% ao ano, impulsionadas por investimento, industrialização, exportações e forte expansão da iniciativa privada. O Brasil, por sua vez, permaneceu preso ao conhecido “voo de galinha”, crescendo em média entre 2,4% e 2,5% ao ano.

Mais da metade dessas três décadas — 15 anos e 8 meses — foi marcada por uma estratégia econômica baseada no crescimento conduzido pelo Estado, com aumento de gastos públicos acima da arrecadação, estímulos ao consumo e ampliação do crédito. Esse modelo produziu expansão temporária, mas deixou como legado fragilidades estruturais.

Os sinais desse desequilíbrio aparecem hoje de forma clara no cotidiano das famílias. Em fevereiro de 2026, o endividamento das famílias brasileiras atingiu 80,2% dos lares, um novo recorde histórico segundo a Pesquisa de Endividamento e Inadimplência do Consumidor (Peic) da Confederação Nacional do Comércio (CNC).

A percepção social confirma o quadro. O Índice Hibou do Consumidor Brasileiro (IHCB) aponta que 78,9% dos brasileiros afirmam que o custo de vida está muito acima da renda. Esse ambiente afeta diretamente a capacidade de planejamento das famílias: 39,9% dizem não ter nenhuma segurança para planejar o futuro financeiro, enquanto 38,4% relatam ter pouca segurança.

Sem previsibilidade, não há planejamento. E sem planejamento, o futuro torna-se incerto.

Há ainda uma contradição curiosa no debate nacional. Parte da esquerda brasileira costuma citar a China como exemplo de sucesso econômico. Entretanto, o modelo que impulsionou o crescimento chinês foi justamente a abertura ao investimento privado, a criação de zonas econômicas especiais, a integração agressiva ao comércio internacional e a forte liberdade para empreender — características típicas de economias orientadas pelo mercado.

Ou seja, a China cresceu quando decidiu liberar as forças produtivas, enquanto o Brasil continua frequentemente ampliando controles e entraves.

Aqui, até mesmo os avanços parecem caminhar lentamente. A própria Reforma Tributária, que poderia representar simplificação e racionalidade, ainda provoca insegurança entre trabalhadores informais, microempresas e pequenos empreendedores, preocupados com novos custos e maior complexidade operacional.

No mundo inteiro, a fórmula do crescimento é amplamente conhecida:
segurança jurídica, ambiente favorável aos negócios, liberdade de iniciativa, facilidade para empreender e carga tributária equilibrada.

O Brasil, no entanto, segue na direção oposta em vários aspectos. A carga tributária é elevada para o nível de renda do país — deveria situar-se, no máximo, ao redor de 26% do PIB para economias emergentes — e os agentes econômicos enfrentam um verdadeiro cipoal de leis, decretos e regulações que mudam com frequência.

Somam-se a isso a intervenção constante do Estado em setores produtivos e a persistente dificuldade do poder público em manter suas próprias contas sob controle.

O resultado é um ambiente que desestimula investimento, reduz produtividade e limita o crescimento.

O Brasil precisa voltar a crescer de forma sustentada. Para isso, será indispensável melhorar o ambiente de negócios, estimular o empreendedorismo e recuperar a confiança de quem produz, investe e gera empregos.

Em outras palavras, é preciso soltar as amarras do Brasil.

(*) é Economista e Doutor em Desenvolvimento Sócio-Ambiental pelo Núcleo de Altos Estudos da Amazônia. 

* O conteúdo opinativo acima é de inteira responsabilidade do colaborador e titular desta coluna. O Portal Gente de Opinião não tem responsabilidade legal pela "OPINIÃO", que é exclusiva do autor.

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