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Gente de Opinião

Vinício Carrilho

Funções secretas da educação não libertária


 

 


A luta científica é uma luta armada

Bourdieu


As afirmações traçadas pelas funções homogeneizadora e diferenciadora para a educação não são meras escolhas ideológicas – desligadas da realidade – e teoremas ou recortes de teorias sociais igualmente distantes da vida comum do homem médio.
 

Antes de tudo são funções sistêmicas, (re)produtivistas e (re)afirmadas cotidianamente, mecanicamente, até que se tornem parte essencial das mentalidades, atuando, manifestando-se nas visões de mundo pré-dirigidas ou que dirigem as estruturas políticas e, sobretudo, no mundo do trabalho e da produção. Esta educação se pauta na “dominação”.
 

As únicas exceções observadas em escala econômica se aplicam: 1) aos chamados grupos sociais inimpregáveis – lumpemproletariado ou fração de classe do proletariado expurgado da produção; 2) aos que cedem a mais-valia extraída ou manipulada diretamente do trabalho vivo, engenhoso, criativo.
 

No primeiro caso, os inimpregáveis (mendigos econômicos de toda sorte) podem servir de massa de manobra política em casos mais graves de instabilidade sistêmica do poder – sans culotes, descamisados – ou atuam como coerção moral e ameaça explícita de desemprego ao conjunto dos trabalhadores que queiram reivindicar “direitos em excesso” (domínio).
 

No segundo grupo, tanto faz que a manipulação da inteligência e da força de trabalho advenha de grupos pobres ou de classes médias; importa que a energia social vital desses grupos ou indivíduos possa ser sugada na forma de uma cooptação direta. Pois, trata-se do restante das classes sociais produtivas, mas não hegemônicas e nem pertencentes aos grupos de poder dominante.
 

Temos exemplo evidente com inventos de expedientes, peças, técnicas ou rotinas de trabalho que elevam a produção e são doadas pelos próprios trabalhadores em caixas de sugestões de suas empresas. Eleva-se a rentabilidade do trabalhador, eleva-se a taxa de extração de lucratividade, mas, isso não implica em ganho pessoal.
 

Assim, a mais valia ou mais-valor chega ao nível espiritual, uma vez que o trabalhador sugere – a partir da reflexão acerca de sua experiência pessoal – maneiras de melhor ser explorado; elevando-se, por sua colaboração direta, a produção que não lhe renderá mais do que um pôster de “funcionário do mês”.
 

Portanto, entender que a educação deva formar para o trabalho (manual), a classe trabalhadora, e para a direção social, política e da produção, as classes proprietárias, não é um luxo de intelectuais trancados em gabinetes. O resultado é simples e objetivo: disciplinar, treinar, ordenar, quer seja para mandar, quer seja para obedecer.
 

No fundo, poucos têm consciência de que mandam ou obedecem ou do porquê agirem deste ou daquele modo diante da “roda da fortuna” do poder. Não há magia ou império de uma ideologia vazia, já chegamos ao desencantamento ou desencanto – no caso dos mais críticos: ironia. Este poder está mais para um mecanismo de automação – ligando-se no automático os voluntários logo se apresentam: cinismo.
 

O que indica um caminho para visualizar porque não temos virtudes suficientes na vida prática (Maquiavel, 1994) ou homens de virtù: Vertù contra furore / Prender àl’arme, e fia ‘l combatter corto (Maquiavel, 1979, p. 94).
 

Desde Hobbes (1983), o poder é meio/fim do homo artificialis: uma machina machinarum (Bobbio, 1987, p. 45) de satisfação pessoal e societal. Apesar de exigir um conatusdesejo e razão que nem sempre se traduzem por “desejo razoável” –, o poder exibe-se como mecanismo ou máquina: instrumento de regulação e de controle.
 

Até que um dia a insurreição deplore a opressão. Para quem aplica Foucault como receita de bolo e eficiente instrumento/teoria de disciplina e de controle social, é preciso lembrar do mais antigo dos direitos: o direito de insurreição.
 

De modo geral, é possível entender porque a Razão de Estado se imiscui no desejo pessoal e avassalador para ter-se mais poder. Os arcana imperii, os segredos da arca ou da Caixa de Pandora da política, esconderiam os desejos não confessáveis do poder de exceção, do cesarismo, do bonapartismo e de todas as outras formas de ganância e de mesquinharia dos adoradores/aduladores do poder.

Educa-se para uma espécie de normalização/normatização (“naturalização”: tudo segue a ordem natural das coisas) e cada um deve saber seu lugar na sociedade, seu papel (status) e função social (desempenho). Educa-se para não se saber-ver outra forma de organização social. Educa-se para atender ao sistema e daí virá o sucesso.
 

Porém, não virá. Porque este sucesso não vem da mais-valia cedida, sejam pobres sejam remediados; este sucesso – sinônimo de poder – é resultado da hegemonia dos grupos de poder dominantes que planejaram e colocaram em pauta o referido funcionamento deste “estado de coisas”.

Então, não se confunda elevação do bem-estar com poder de dominação e de domínio – e ainda que a dominação possa ser observada/empregada pelos dirigentes “cooptados” pelo sistema produtivo nas suas respectivas funções intermediárias. Neste caso, por exemplo, funções exercidas pelos gerentes de produção ou formadores de novas ideologias: professores, no outro extremo.
 

Como se vê, a ciência não é neutra e a educação reprodutivista não é libertária. A ciência é boa em sua racionalidade: vacinas e curas; a ciência é má na exata proporção de sua crescente racionalidade: venenos, bombas e Auschwitz. Ou seja, a ciência é política em sua intencionalidade. Por sua vez, dentro desses parâmetros, a educação é domínio (coerção) e dominação racional, mas nos mesmos moldes reguladores da ciência e da vida moderna.


Bibliografia


BOBBIO, Norberto. Estado – Governo – Sociedade: para uma teoria geral da política. 3ª ed. Rio de Janeiro : Paz e Terra, 1987.

BOURDIEU, Pierre. Os usos sociais da ciência: por uma sociologia clínica do campo científico. São Paulo, Editora UNESP, 2004.

HOBBES, Thomas. Leviatã. Col. Os Pensadores. 3ª ed. São Paulo : Abril Cultural, 1983.

MAQUIAVEL, Nicolau. O Príncipe - Maquiavel: curso de introdução à ciência política. Brasília-DF : Editora da Universidade de Brasília, 1979.

_____ A mandrágora. (2ª Edição). São Paulo : Brasiliense, 1994.

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