Quinta-feira, 26 de março de 2026 - 08h03

No mês que marca o Dia
Internacional das mulheres não faltam motivos para combater a violência de
gênero em Rondônia. Estamos na vergonhosa colocação de segundo lugar entre os
estados brasileiros que mais matam mulheres e estupram vulneráveis do país.
No mês passado mais um caso
assombroso veio à tona em Porto Velho. Uma adolescente de 16 anos foi
encontrada morta na Capital com sinais de tortura e maus tratos. A jovem que comia restos de comida que eram
dados aos animais, dormia no chão, amarrada com fios na cama para não sair do
quarto, era mantida em cárcere privado e sofria torturas dentro da casa onde
morava com o pai e a madrasta.
Marta era foi encontrada de fralda, desnutrida,
com os ossos expostos, ferimentos cheios de larvas em um ambiente completamente
insalubre, com marcas indicando que ela passou dias imobilizada. A madrasta que
também participava das agressões cortava o cabelo da vítima de forma bem curta
e demonstrava ciúmes.
Me pergunto que tipo de ira ou
satisfação estimulou essas pessoas ao ponto de descontar dessa maneira nesta
menina. E quem mais realizou consentiu ou não tomou partido da dor dessa
garota? Se os avós sabiam e o restante da família? E os vizinhos? Ninguém nunca
exigiu ver a adolescente depois do sumiço? E a Secretaria de Educação? Por que
não exigiu o comprovante de matrícula da outra escola quando o pai retirou a
menina do colégio e alegou que seria transferida? São tantas camadas, vários
erros, diversos culpados pela morte de Marta.
Estamos perdendo a humanidade, precisamos recuperar os laços
comunitários, essa aversão ao convívio social e romantização da
antissociabilidade tem feito com que deixamos de se preocupar com o outro.
O caso Marta e tantos outros têm sido
noticiados diariamente por aqui. São homens de confiança de dentro casa que
acham que a vida de mulheres não são tão importantes quanto a deles.
É importante lembrar que o
feminicídio não é um crime novo ele sempre existiu dentro de um sistema que
violenta e silencia mulheres. A misoginia também não é de agora. Acontece que
estamos presenciando um crescimento de grupos masculinistas e ideologias como a
Red Pill que pregam submissão feminina e papéis tradicionais de gênero que
violenta e silencia mulheres. Esses discursos ganharam força dentro e fora das redes
sociais, alimentando e encorajando comportamentos que colocam a vida de
mulheres em risco. Esse retrocesso tem ajudado a aumentar os casos de violência
contra a mulher, pois reforçam que a nossa vida vale menos.
Existem alguns avanços, como a aprovação
do Senado para a inclusão da misoginia
entre os crimes de preconceitos ou discriminação. A pena para este tipo de
crime é de dois a cinco anos de prisão. Além da multa. Também tem a aplicação
imediata de tornozeleiras eletrônicas para agressores que colocarem em risco a
vida de mulheres e crianças, em casos de violência doméstica.
Porém existe apenas uma casa de abrigo
em Rondônia para acolher mulheres e crianças em casos de violência doméstica.
As delegacias de atendimento a Mulher (DEADMs) ainda não funcionam 24h. O
estado que se recusou a assinar o Pacto Nacional de Prevenção ao Feminicídio,
ainda não tem uma Secretaria Estadual de Políticas públicas para mulheres. Ou
seja, não temos orçamento nem estrutura, porque nossa vida não é prioridade.
O pai e a madrastra da adolescente serão
indiciados por feminicídio, cárcere privado, maus tratos, emissão de socorro e
tortura com resultado morte. Mas nada
disso vai trazer a vida de Marta de volta.
A jovem que gostava de cantar na igreja e sonhava em terminar os estudos
virou mais uma estatística no estado onde a falta de consciência sobre o
tamanho do problema de saúde pública persiste.
Quinta-feira, 26 de março de 2026 | Porto Velho (RO)
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