Sexta-feira, 22 de dezembro de 2023 - 12h08

Dasdores (assim se chamavam as
moças daquele tempo) sentia-se dividida entre a Missa do Galo e o presépio. Se
fosse à igreja, o presépio não ficaria armado antes de meia-noite e, se se
dedicasse ao segundo, não veria o namorado. É difícil ver namorado na rua, pois
moça não deve sair de casa, salvo para rezar ou visitar parentes. Festas são
raras. O cinema ainda não foi inventado, ou, se o foi, não chegou a esta nossa
cidade, que é antes uma fazenda crescida. Cabras passeiam nas ruas, um cincerro
tilinta: é a tropa. E viúvas espiam de janelas, que se diriam jaulas. Dasdores
e suas numerosas obrigações: cuidar dos irmãos, velar pelos doces de calda,
pelas conservas, manejar agulha e bilro, escrever as cartas de todos. Os pais
exigem-lhe o máximo, não porque a casa seja pobre, mas porque o primeiro
mandamento da educação feminina é: trabalharás dia e noite. Se não trabalhar
sempre, se não ocupar todos os minutos, quem sabe de que será capaz a mulher?
Quem pode vigiar sonhos de moça? Eles são confusos e perigosos. Portanto, é
impedir que se formem. A total ocupação varre o espírito. Dasdores nunca tem
tempo para nada. Seu nome, alegre à força de repetido, ressoa pela casa toda.
"Dasdores, as dálias já foram regadas hoje?" "Você viu,
Dasdores, quem deixou o diabo desse gato furtar a carne?" "Ah,
Dasdores, meu bem, prega esse botão para sua mãezinha". Dasdores
multiplica-se, corre, delibera e providencia mil coisas. Mas é um engano supor
que se deixou aprisionar por obrigações enfadonhas. Em seu coração ela voa para
o sobrado da outra rua, em que, fumando ou alisando o cabelo com brilhantina,
está Abelardo. Das mil maneiras de amar, ó pais, a secreta é a mais ardilosa, e
eis a que ocorre na espécie. Dasdores sente-se livre em meio às tarefas, e até
mesmo extrai delas algum prazer. (Dir-se-ia que as mulheres foram feitas para o
trabalho... Alguma coisa mais do que resignação sustenta as donas-de-casa.)
Dasdores sabe combinar o
movimento dos braços com a atividade interior — é uma conspiradora — e sempre
acha folga para pensar em Abelardo. Esta véspera de Natal, porém, veio
encontrá-la completamente desprevenida. O presépio está por armar, a noite
caminha, lenta como costuma fazê-lo no interior, mas Dasdores é íntima do
relógio grande da sala de jantar, que não perdoa, e mesmo no mais calmo povoado
o tempo dá um salto repentino, desabafa o incauto: "Agarra-me!"
Sucede que ninguém mais, salvo esta moça, pode dispor o presépio, arte
comunicada por uma tia já morta. E só Dasdores conhece o lugar de cada peça,
determinado há quase dois mil anos, porque cada bicho, cada musgo tem seu papel
no nascimento do Menino, e ai do presépio que cede a novidades. As caixas estão
depositadas no chão ou sobre a mesa, e desembrulhá-las é a primeira satisfação
entre as que estão infusas na prática ritual da armação do presépio. Todos os
irmãos querem colaborar, mas antes atrapalham, e Dasdores prefere ver-se morta
a ceder-lhes a responsabilidade plena da direção. Jamais lhes será dado tocar,
por exemplo, no Menino Jesus, na Virgem e em São José. Nos pastores, sim, e nas
grutas subsidiárias. O melhor seria que não amolassem, e Dasdores passaria o dia
inteiro compondo sozinha a paisagem de água, pedras, relva, cães e pinheiros,
que há de circundar a manjedoura. Nem todos os animais estão perfeitos; este
carneirinho tem uma perna quebrada, que se poderia consertar, mas parece a
Dasdores que, assim mutilado e dolorido, o Menino deve querer-lhe mais. Os
camelos, bastante miúdos, não guardam proporção com os cameleiros que os
tangem; mas são presentes da tia morta, e participam da natureza dos animais
domésticos, a qual por sua vez participa obscuramente da natureza da família.
Através de um sentimento nebuloso, afigura-se-lhe que tudo é uma coisa só, e
não há limites para o humano. Dasdores passa os dedos, com ternura, pelos
camelinhos; sente neles a macieza da mão de Abelardo.
Alguém bate palmas na escada;
ô de casa! amigas que vêm combinar a hora de ir para a igreja. Entram e acham o
presépio desarranjado, na sala em desordem. Esta visita come mais tempo,
matéria preciosa ("Agarra-me! Agarra-me!"). Quando alguém dispõe
apenas de uns poucos minutos para fazer algo de muito importante e que exige
não somente largo espaço de tempo mas também uma calma dominadora — algo de
muito importante e que não pode absolutamente ser adiado — se esse alguém é
nervoso, sua vontade se concentra, numa excitação aguda, e o trabalho começa a
surgir, perfeito, de circunstâncias adversas. Dasdores não pertence a essa raça
torturada e criadora; figura no ramo também delicado, mas impotente, dos
fantasistas. Vão-se as amigas, para voltar duas horas depois, e Dasdores,
interrogando o relógio, nele vê apenas o rosto de Abelardo, como também percebe
esse rosto de bigode, e a cabeleira lustrosa, e os olhos acesos, dissimulados
nas ramagens do papel da parede, e um pouco por toda parte. A mão continua
tocando maquinalmente nas figuras do presépio dispondo-as onde convém. Nada
fará com que erre; do passado a tia repete sua lição profunda. Entretanto, o
prazer de distribuir as figuras, de fxar a estrela, de espalhar no lago de
vidro os patinhos de celuloide, está alterado, ou subtrai-se. Dasdores não o
saboreia por inteiro. Ou nele se insinuou o prazer da missa? Ou o medo de que o
primeiro, prolongando-se, viesse a impedir o segundo? Ou um sentimento de
culpa, ao misturar o sagrado ao profano, dando, talvez, preferência a este
último, pois no fundo da caminha de palha suas mãos acariciavam o Menino, mas o
que a pele queria sentir sentia, Deus me perdoe — era um calor humano, já
sabeis de quem.
Aqui desejaria, porque o mundo
é cruel e as histórias também costumam sê-lo, acelerar o ritmo da narrativa,
prover Dasdores com os muitos braços de que ela carece para cumprir com sua
obrigação, vestir-se violentamente, sair com as amigas — depressa, depressa, ir
correndo ladeira acima, encontrar a igreja vazia, o adro já quase deserto, e
nenhum Abelardo. Mas seria preciso atribuir-lhe, não braços e pernas
suplementares, e sim outra natureza, diferente da que lhe coube, e é pura
placidez. Correi, sôfregos, correi ladeira acima, e chegai sempre ou muito
tarde ou muito cedo, mas continuai a correr, a matar-vos, sem perspectiva de
paz ou conciliação. Não assim os serenos, aqueles que, mesmo sensuais, se
policiam. O dono desta noite, depois do Menino, é o relógio, e este vai
mastigando seus minutos, seus cinco minutos, seus quinze minutos. Se nos
esquecermos dele, talvez pule meia hora, como um prestidigitador furta um ovo,
mas, se nos pusermos a contemplá-lo, os números gelam, o ponteiro imobiliza-se,
a vida parou rigorosamente. Saber que a vida parou seria reconfortante para
Dasdores, que assim lograria folga para localizar condignamente os três reis na
estrada, levantar os muros de Belém. Começa a fazê-lo, e o tempo dispara de
novo. "Agarra-me! Agarra-me!" Nas cabeças que espiam pela porta
entreaberta, no estouvamento dos irmãos, que querem se debruçar sobre o caminho
de areia antes que essa esteja espalhada, na muda interrogação da mãe, no
sentimento de que a vida é variada demais para caber em instantes tão curtos,
no calor que começa a fazer apesar das janelas escancaradas — há uma previsão
de malogro iminente. Pronto, este ano não haverá Natal. Nem namorado. E a noite
se fundirá num largo pranto sobre o travesseiro.
Mas Dasdores continua, calma e preocupada, cismarenta e repartida, juntando na imaginação os dois deuses, colocando os pastores na posição devida e peculiar à adoração, decifrando os olhos de Abelardo, as mãos de Abelardo, o mistério prestigioso do ser de Abelardo, a auréola que os caminhantes descobriram em torno dos cabelos macios de Abelardo, a pele morena de Jesus, e aquele cigarro — quem botou! — ardendo na areia do presépio, e que Abelardo fumava na outra rua.
2-O ÚLTIMO PINGO

“Quem morre de véspera é leitão” –
Zé de Nana, que prefere um porquinho pururuca ao peru de natal.
3-PONTO
FINAL
Feliz natal, aproveitem o feriadão e se tudo correr
bem a gente se fala dia 27.
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