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Meio Ambiente

O preço do oxigênio - O mundo parece não querer que a Amazônia seja conservada



Recebemos do senador Acir Gurgacz (PDT/RO) uma contribuição ao debate sobre a preservação da Amazônia. Com ele, abrimos uma série sobre o assunto, que vai se concluir no seminário que realizaremos em abril para lançar nossa publicação especial “Carta Verde”. 


Senador Acir Gurgacz (PDT/RO)
- Revista Carta Capital

Quanto custa o oxigênio produzIdo na Amazônia? É fácil saber quanto custa cada litro do petróleo do pré-sal, mas e quanto ao metro cúbico de oxigênio? É fácil definir o valor dos royalties para remunerar os Estados produtores de petróleo, mas e os Estados produtores de oxigênio?

Costumamos ouvir as cobranças do mundo inteiro pela preservação da Amazônia. Sequer falam em “conservar” a Amazônia, querem-na intangível. A diferença pode não parecer clara para alguns, mas ela se refere a usar ou não um recurso. Quando preservamos algo, é como colocarmos sob uma redoma de vidro. Quando procuramos conservar algo, como por exemplo, o gado bovino, cuidamos para que a espécie tenha condições de se reproduzir, de existir. Ou seja, matamos bois e vacas há séculos e eles continuam por aqui.

O mundo parece não querer que a Amazônia seja conservada. A opinião pública e organismos internacionais gostam mais da idéia de uma floresta amazônica que não sirva para nada além de produzir oxigênio. Esquecem que o continente africano tem uma floresta equatorial tão grande quanto a nossa e que pode produzir tanto oxigênio quanto nós.

A diferença é que a floresta africana está dividida entre vários países, e o mundo não se mostra muito disposto a assumir a dificuldade de lidar com duas situações: as florestas de pequenos países africanos não têm o peso político da nossa Amazônia; e a culpa que o Primeiro Mundo teve (e tem) no processo de desmatamento daquele continente.

Desta forma, a pressão por decisões ecologicamente corretas recai sobre o Brasil, e mais diretamente sobre nós, Estados dentro daquilo que chamam de reserva mundial de biodiversidade. Temos que preservar a floresta, temos que recuperar áreas que foram desmatadas sob determinação do governo no século passado e temos, acredito, que viver de brisa. Viver de oxigênio.

Caso essa consciência ecológica valesse para todos os Estados do Brasil, quantas cidades deveriam deixar de existir? Quantas fábricas sumiriam? Condomínios inteiros, praias e resorts simplesmente sumiriam no nosso mapa. Afinal de contas, em algum momento da história do Brasil os machados e motosserras trabalharam duro para dar espaço ao desenvolvimento.

Não quero defender aqui o desmatamento. Longe disso. Quero apenas agir dentro de uma lógica que parece servir para todo o mundo e para o resto do Brasil, mas não para nós, Estados amazônicos: precisamos de sustento e condições de desenvolvimento. Se o país e o mundo demanda que a Amazônia produza oxigênio, é preciso estabelecer um preço para isso. E que não nos chamem de mercenários.

Na Europa a solução para esse dilema já existe há tempos. Selos indicativos de produção ecologicamente sustentados diferenciam preços e valorizam produtos. Uma geléia de framboesa fabricada com frutos orgânicos e em áreas menos agredidas pelo homem custam mais caro que aquela produzida com agrotóxicos e regiões sem manejo ambiental. Por quê? Porque o fabricante da primeira geleia tem uma linha de produção bem menor que a segunda.

Uma saída como essa deve ser a opção para os Estados inseridos dentro dessa mancha verde da Amazônia. Ou seja, uma remuneração para não desmatar, uma remuneração para manter do jeito que está. Esse preço seria estabelecido e agregado em quê? Na carne produzida em Rondônia? Em cotas de financiamento com juros estabelecidas em proporções de áreas não-desmatadas? Ou em financiamentos a fundo perdido definidos pelo mesmo critério?

É preciso avaliar essa compensação de forma séria, pois, ao contrário do que o mundo parece pensar, há seres humanos vivendo nos Estados que integram a nossa Amazônia. Pessoas que têm os mesmos sonhos, as mesmas necessidades e ambições bem parecidas com a de pessoas que vivem em São Paulo, Rio de Janeiro, Londres ou Paris.

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