Quinta-feira, 26 de março de 2026 - 18h53

Punir não basta: o
Brasil endurece as leis, mas o problema é mais profundo.
Novas medidas contra
a violência e humilhação de mulheres são necessárias, mas expõem um limite: sem
enfrentar as raízes sociais do problema, a violência tende a se reproduzir.
A recente aprovação
de leis mais rigorosas no Brasil para punir práticas de violência, humilhação e
discriminação contra as mulheres representa um avanço importante. Trata-se de
uma resposta necessária diante de uma realidade persistente: mulheres seguem
sendo alvo de agressões em diferentes espaços da vida social. A
responsabilização dos agressores é indispensável e não pode ser relativizada.
A experiência
brasileira com a Lei Maria da Penha ajuda a compreender tanto os avanços quanto
os limites desse caminho. A lei ampliou denúncias, fortaleceu mecanismos de
proteção e produziu efeitos concretos em diferentes contextos. No entanto,
também evidenciou que a resposta jurídico-penal, embora necessária, não é
suficiente quando não acompanhada de políticas estruturais mais amplas.
Isso ocorre porque a
violência contra a mulher não pode ser explicada apenas como resultado de
decisões individuais. Ela é, em grande medida, produzida ao longo da história,
sustentada por valores culturais e por formas de organização da vida social que
naturalizaram desigualdades entre homens e mulheres.
Nesse ponto, um
aspecto frequentemente negligenciado precisa ser trazido ao debate: a própria
formação social do que significa “ser homem”. Desde cedo, muitos homens são
educados a associar sua identidade à força, ao controle, à validação externa e
ao reconhecimento social de determinados comportamentos. Não se trata de
vitimizar o homem, mas de compreender que essa construção histórica também
produz limites, tensões e, em alguns casos, formas distorcidas de afirmação de
si.
Esse processo é
reforçado de maneira sutil, inclusive por dispositivos institucionais e legais.
Ainda hoje, normas sociais e jurídicas associadas à organização da família e do
cuidado — como aquelas relacionadas à chegada de um filho — tendem a indicar,
de forma implícita, papéis distintos para homens e mulheres. Sem necessidade de
grande elaboração teórica, a própria estrutura social comunica, reiteradamente,
o que se espera de cada um.
Quando a validação do
que é “ser homem” se ancora em padrões historicamente construídos, muitas vezes
marcados por assimetrias de poder, abre-se espaço para contradições profundas.
Em situações de conflito, frustração ou perda de controle, essas referências
podem contribuir para a emergência de atitudes violentas, não como destino
inevitável, mas como expressão de um processo formativo socialmente
determinado.
Dessa forma, a ampliação
das penas, embora necessária, tende a incidir sobre o ato já consumado. Ela
atua sobre a consequência, mas não altera, por si só, as condições que produzem
esse tipo de comportamento.
Se quisermos avançar
de forma consistente, é necessário ampliar o horizonte de ação. Isso implica
investir em processos educativos que também alcancem os homens, promovendo uma
reflexão crítica sobre os significados historicamente atribuídos à
masculinidade. Trata-se de abrir espaço para outras formas de reconhecimento social,
menos baseadas na dominação e mais orientadas por relações humanas mais amplas
e emancipatórias.
Essa transformação
não interessa apenas às mulheres. Ao questionar padrões rígidos de
masculinidade, a sociedade também cria condições para que os próprios homens se
libertem de modelos que limitam sua humanidade e empobrecem suas formas de
existência.
O Brasil dá um passo
importante ao endurecer suas leis. Mas, se quiser enfrentar de forma efetiva a
violência contra a mulher, precisará dar um passo além: articular a punição
necessária com a transformação das condições sociais que continuam a produzir,
de maneira recorrente, aquilo que se busca combater.
Punir é necessário.
Educar e transformar é indispensável.
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