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Entre o símbolo e o silêncio


Entre o símbolo e o silêncio - Gente de Opinião

Vivemos tempos curiosos, para dizer o mínimo. Quem nasceu nos anos 60 e atravessou a juventude nas décadas de 80 e 90 assistiu a transformações profundas no mundo. Foi o tempo da queda do Muro de Berlim, do fim da Guerra Fria, da expansão das democracias e de mudanças sociais que pareciam, na época, revolucionárias. A minha geração acreditou que estava presenciando a construção de um mundo mais aberto, mais racional e mais coerente. Décadas depois, no entanto, muitas das situações que presenciamos parecem produzir um sentimento estranho de inversão ou de paradoxo. Não porque as sociedades não possam mudar, elas sempre mudam, mas porque certas mudanças parecem desafiar a lógica que durante muito tempo orientou o debate público.

Um exemplo recente no Brasil ajuda a ilustrar esse sentimento. A deputada federal Erika Hilton, do Partido Socialismo e Liberdade (PSOL-SP), foi eleita presidente da Comissão de Defesa dos Direitos da Mulher da Câmara dos Deputados. A comissão existe justamente para discutir políticas públicas voltadas à proteção das mulheres, combater a violência de gênero e ampliar direitos em uma sociedade onde, infelizmente, os índices de agressão e feminicídio ainda são alarmantes.

O episódio já seria suficiente para gerar debate político. Mas ele ganhou um simbolismo ainda maior por duas razões: A primeira é que a deputada é uma parlamentar trans. A segunda, e talvez a mais emblemática,  é que a eleição ocorreu exatamente no período em que o mundo celebra o Dia Internacional da Mulher, uma data criada justamente para fortalecer o protagonismo feminino, lembrar as lutas históricas das mulheres por igualdade e chamar atenção para a violência que ainda recai sobre elas em muitas sociedades.

É nesse ponto que surge uma reflexão que precisa ser feita com serenidade e respeito. Não se trata de questionar o direito de qualquer cidadão ocupar cargos públicos. Em uma democracia, esse direito é legítimo e deve ser preservado. Tampouco se trata de hostilidade contra pessoas trans, que merecem respeito como qualquer outro indivíduo. A questão é outra, e ela é essencialmente simbólica. Durante décadas, movimentos femininos lutaram para ampliar o espaço das mulheres nas estruturas de poder. Essa luta resultou em conquistas importantes: leis de proteção, maior visibilidade para a violência doméstica e maior participação feminina em diversos setores da vida pública. Por isso chama atenção que, justamente no momento em que se celebra o Dia Internacional da Mulher — data que reforça a necessidade de protagonismo feminino —, um fato tão simbólico tenha ocorrido sem provocar uma reação mais ampla dos movimentos que historicamente defendem essa pauta. O silêncio de muitos desses movimentos causa estranheza.

Nesse momento, o país vive uma das maiores ondas de violência contra mulheres. Continua sendo uma tragédia cotidiana e onde estados da região Norte, especialmente Rondônia, frequentemente aparecem entre os que registram índices elevados de feminicídio, seria natural imaginar um debate intenso sobre quem ocupa a liderança institucional da comissão encarregada de enfrentar esse problema. Mas o que se viu, na grande medida, foi uma postura discreta ou até mesmo inerte dos movimentos feministas.

Esse tipo de paradoxo não ocorre apenas no Brasil. O mundo contemporâneo parece cada vez mais repleto de situações que desafiam antigas lógicas históricas.

No Reino Unido, por exemplo, o país que durante séculos construiu um dos maiores impérios coloniais da história acabou elegendo como primeiro-ministro um descendente de imigrantes indianos: Rishi Sunak. O fato carrega um simbolismo evidente. A Índia foi colônia britânica por quase duzentos anos, e um político de origem indiana governou a antiga metrópole imperial.

Há ainda um detalhe curioso: a fortuna familiar de Sunak, ligada em grande parte ao patrimônio da família de sua esposa, é frequentemente apontada como superior ao patrimônio pessoal da própria realeza britânica. Um descendente de um antigo povo colonizado governando o antigo colonizador — eis um símbolo poderoso das mudanças históricas.

Nos Estados Unidos também se observou fenômenos semelhantes. Uma das cidades mais simbólicas do mundo ocidental, Nova York, já elegeu como prefeito um político muçulmano, demonstrando como sociedades plurais conseguem incorporar identidades culturais diversas em seus centros de poder.

Esses exemplos mostram que as democracias modernas são capazes de romper barreiras históricas e culturais. Em muitos casos, essas mudanças representam avanços importantes contra preconceitos antigos. Mas o mundo contemporâneo também parece produzir contradições difíceis de explicar.

No Brasil, por exemplo, existe uma política pública que frequentemente gera debates acalorados: o Auxílioreclusão. O benefício é pago aos dependentes de criminosos presos. Ainda que tenha critérios específicos e seja destinado diretamente aos seus familiares, o programa costuma gerar indignação popular quando comparado com a ausência de políticas equivalentes de apoio direto às famílias de vítimas de crimes. Essas não! Não recebem nada. O Estado acha que precisam desse beneficio e tem que correr atrás para sobreviver. Detalhe, o auxilio reclusão é maior que o salário-mínimo, o valor normalmente pago ao trabalhador essa comparação alimenta a sensação de que certas prioridades do Estado nem sempre correspondem às percepções de justiça presentes na sociedade.

E é justamente nesse ambiente de paradoxos que o episódio envolvendo a Comissão de Defesa dos Direitos da Mulher ganha uma dimensão ainda mais simbólica. A pergunta que muitos fazem não é necessariamente sobre a capacidade política da deputada Erika Hilton. Na democracia, qualquer parlamentar eleito tem legitimidade para exercer funções públicas. Será???

A questão que surge é outra: por quê, justamente no momento em que se celebra o protagonismo feminino, o próprio movimento que defende essa causa parece ter permanecido inerte diante de uma mudança tão simbólica?

A história mostra que líderes podem defender causas que não são necessariamente as suas. Isso já aconteceu inúmeras vezes. Mas também é verdade que determinadas causas ganham força justamente quando seus próprios protagonistas ocupam o centro da representação.

Quando mulheres defendem os direitos das mulheres, há uma força simbólica que nasce da experiência vivida. Quando essa experiência deixa de ocupar o centro da representação institucional, surge inevitavelmente um questionamento: não estaria ocorrendo um deslocamento do protagonismo feminino justamente no espaço criado para ampliá-lo?

Talvez essa seja a reflexão mais importante.

Não se trata de negar direitos, muito menos de alimentar preconceitos. Trata-se apenas de reconhecer que, em determinados momentos da história, os símbolos importam tanto quanto as decisões práticas.

Rubens Nascimento é jornalista, bacharel em Direito, M.M Maçom- GOB/RO e ativista do Desenvolvimento Responsável.

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